10 desculpas para ir ao Sul da Patagônia

Quem gosta de viajar não precisa de motivo e se você gosta, mas gosta mesmo, vai sempre arrumar desculpa para mais uma viagem. Pode ser uma promoção de aéreo, um bônus recebido, a previsão maia de que o mundo acabaria (eu fui à Riviera Maia pra ver isso de perto – ótima desculpa) ou a hipótese de que Veneza ficará submersa um dia. Por isso o título deste post não é 10 motivos, e sim 10 desculpas. E estas aqui estão entre as desculpas mais lindas deste planeta, te garanto!

1. O azul do Lago Argentino, em El Calafte, Argentina

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2. caminhar sobre a geleira Perito Moreno, Argentina

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3. Tomar whiskey com gelo da Perito Moreno, Argentina

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4. Ficar bem pertinho de guanacos, raposas e emas e, se der sorte, avistar condores e pumas no Parque Torres del Paine, Chile

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5. estar no extremo Sul habitável do mundo, em Ushuaia, Argentina conhecido como “O Fim do Mundo”

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6. observar pinguins, leões marinhos e baleias bem de pertinho, em Ushuaia

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7. dirigir em estrada deserta, mas tão deserta, mesmo em alta temporada, que dá pra se sentar bem no meio dela! Entre os dois países

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8. ter o prazer de estar em uma paisagem como esta, em Torres del Paine, Chile

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9. ou como esta em El Chaltén, na Argentina

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10. Realizar o sonho de chegar ao final de uma trilha.

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Bônus (sempre tem mais uma desculpa): Fazer a mesma rota de Charles Darwin pelo Canal Beagle e Cabo Horn

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Torres del Paine: hipnotizantes

Acho que esse é o adjetivo perfeito para descrever as montanhas em Torres del Paine: Hipnotizantes. Eu não me cansava de admirá-las, igual à menina que ganha a boneca tão desejada e a leva para a cama, acorda no meio da noite, sorri, abraça a boneca e volta a dormir. Como não dormi ao relento, mantive as cortinas do quarto abertas para que a montanha Almirante Neto fosse a última coisa a ser vista e a primeira ao amanhecer, ainda sem sair da cama. Além disso, não resisti e na primeira noite deixei o calor e a segurança do quarto (a região tem pumas) para, entre as duas ou três da madrugada, sentir a montanha, o vale e a escuridão – mas só um pouquinho, porque bicho de cidade se assusta com o nada.

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Caso de amor com a montanha

Se você também gosta de estar em vales, montanhas e lagos, bem-vindo/a a este post! Se você aprecia quase qualquer tipo de viagem, como eu, bem-vindo/a a este post!

Como já contei aqui no blog, chegamos ao Parque Nacional Torres del Paine dirigindo de El Calafate, na Argentina, viagem esta tema do post De El Calafate a Torres del Paine. Recapitulando: era segunda quinzena de janeiro, quando as temperaturas são amenas no sul da patagônia e os dias mais longos.

Este relato começa logo após cruzarmos a fronteira. O trecho de 13 quilômetros de rípio (cascalhos) entre a estrada até a Portaria Lago Sarmiento é bem ruim.  Alguns preferem entrar no parque pela Portaria Laguna Amarga. Quem vem de Puerto Natales, mais ao Sul, provavelmente use a Portaria Serrano. As portarias permanecem abertas das 8h30 às 20h30 nessa época do ano. Escolhemos a Sarmiento porque iríamos percorrer a estrada da Portaria Laguna Amarga, que é mais cênica, no final do dia, a caminho do hotel. Sugiro que você imprima um mapa do parque para se localizar e escolher por qual portaria entrará, caso esteja viajando por conta.

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A Portaria Sarmiento

Antes da portaria, você já avista os primeiros guanacos, o Lago Sarmiento e as montanhas com picos nevados. O ingresso nos custou 66 dólares por pessoa (18 mil pesos chilenos), com direito a permanecer no parque por três dias, mas não vimos ninguém conferindo durante o tempo que estivemos lá ou na saída. Você mesmo anota seus dados em um livro, com informações pessoais e origem. Recebe um mapa do parque, com as trilhas e estradas, regulamento e informações básicas da fauna, flora e principais montanhas. Acostumada com sorrisos e saudações de guarda florestais de parques norteamericanos, estranhei a funcionária de poucas palavras e nem esboço de sorriso.

O mapa e os recibos
O mapa e os recibos

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Como nossos planos incluíam um dia de trilha e outros dois dias que, além da visita ao parque, seriam usados para vir de e voltar a El Calafate, aproveitamos a tarde excepcionalmente longa (o sol se põe por volta das 22h no verão) para explorar um trecho do parque.

Com paisagem tão cênica, você faz diversas paradas para fotografar e as horas passam rapidinho. Há alguns pontos com recuo na estrada, mas embora seja proibido parar fora desses pontos, há pouca circulação de veículos e não achamos perigoso, desde que você não pare numa curva, claro.

Dirigimos até o Salto Grande, uma cachoeira não muito impressionante, mas a atração principal foi o vento no meio da trilha: muito forte e surpreendente. Aproveite para fazer fotos divertidas por lá. Dependendo do ângulo, vai parecer que você estava voando mesmo! Também tem uma cafeteria no início da trilha e o catamarã para navegação no Lago Pehoe e para o Acampamento Paine Grande (e a primeira perna do W) parte dali.

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o salto e a selfie

De Salto Grande sai uma trilha fácil de uma hora de duração e quase toda plana para o Mirador Los Cuernos, os picos que competem em beleza com as Torres del Paine que nomeiam o parque. A vista dela pelo caminho é mais bonita do que no próprio mirante, na minha opinião (fotos abaixo). Confira e escolha sua montanha preferida. Eu não consigo decidir!

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Que vento é esse!!!!!
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A vista no meio da trilha para Los Cuernos

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Houve um incêndio em Dezembro de 2011 que atingiu grande área do parque e em janeiro de 2012 o parque ficou fechado. Não só nesta trilha, mas em vários pontos ainda se veem os restos de árvores queimadas. É de partir o coração… Vez ou outra um visitante é expulso do parque por estar fazendo fogueira, o que é terminantemente proibido, em qualquer local ou situação.

Depois da trilha, quase ao escurecer, dirigimos até o Hotel Las Torres. A estrada do parque é de rípio mas fora a poeira não é ruim. Há sinalização indicativa dos lagos e para alguns pontos do parque.

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De rípio, as estradas do parque são melhores do que as estradas de terra do Brasil
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Chegando a Las Torres

O hotel fica aos pés do Monte Almirante  Neto, de 2.670 metros, no início da trilha que leva ao Lago e à vista das Torres del Paine. Além do Hotel, nesta área estão o EcoCamp e os Refúgios Las Torres Norte e Central. Mais abaixo, link para um super post com indicação de hotéis, campings, refúgios.

Fiz minha reserva pelo Booking.com, com quem o Mulher Casada Viaja tem parceria e que sempre uso para reservar os hotéis. Leia as avaliações de hóspedes, veja as fotos do quarto e do hotel, a localização e faça sua reserva clicando aqui. O blog ganha uma pequena comissão, que ajuda os custos com sua manutenção no WordPress. Não custa nada a mais pra você!

Vale onde fica o Hotel Las Torres Patagonia
Vale onde fica o Hotel Las Torres Patagonia

Feito o check in, estávamos ávidos por um banho para tirar o pó e por um prato quente, mas como o restaurante do hotel fecha às 22h e era mais longe do nosso quarto do que o bar (não daria tempo), ficamos por lá, que além de bebidas tem saladas e comidinhas. Pedi um pisco sauer e fomos de salada e empanadas. O bar parecia uma Torre de Babel (adoro!), com gente falando idiomas diversos, trilheiros cobertos de pó e uma vista maravilhosa da montanha.

Você pode ser feliz em qualquer lugar, mas se for em TdP, melhor!
Você pode ser feliz em qualquer lugar, mas se for em TdP, melhor!
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O lobby do hotel com o bar ao fundo

No dia seguinte fizemos a trilha para a base das Torres del Paine, que nos tomou o dia todo e que mereceu um post só pra ele. O link está no final deste post.

A galera descansando à beira do lago
O que vi no final da trilha

Depios da trilha e de um bom banho, nos arrastamos (literalmente! eu mal conseguia caminhar) até o restaurante do hotel e quando soube que o serviço era de buffet me arrependi de não ter ido ao bar. Don’t get me wrong, a comida era boa, mas eu tive que levantar e caminhar até o buffet ao menos três vezes para fazer a refeição completa. As articulações das minhas pernas rangiam, meus pés choravam e eu não via a hora de aquela refeição acabar, eu voltar para o quarto e finalmente repousar. E eu que achava que o Grand Canyon é que tinha sido cansativo! Mas então eu tinha 20 anos a menos!

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No meio da trilha

No terceiro dia em TdP fizemos o check out perto das 10 horas, quando o hotel já estava vazio, pois todos saem cedo para as trilhas, passeios a cavalo ou tours oferecidos pelo hotel. Demos graças por ser um dia em que ficaríamos a maior parte do tempo sentados no carro, pois havíamos exigido demais de nossos preguiçosos músculos.

Deixando Las Torres
Deixando Las Torres

O dia estava nublado e bem escuro e eu não cansava de pensar “Que sorte tivemos em escolher o dia anterior para a trilha. Não havia uma nuvem no céu!”. Pois é, elas resolveram se reunir no the day after.

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Vários ângulos das montanhas vão passando pela janela do carro
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vista do Lago Pehoe
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Viajar é… pular pra foto depois de 10 horas de trilha

A partir daí, a estrada  corre rente ao Rio Paine, que tem um tom lindo de azul. Então entendi. Paine significa azul e as Torres foram nomeadas em uma justa homenagem. Coloquei um vídeo sem edição, com direito a espirro, erro de pronúncia do nome de Lago, trepidação do carro e até o “Pára, pára” para uma foto. A vida como ela é:

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O lindo rio Paine=Azul

Dirigimos até o final da estrada, no Lago Grey (sorry ladies, nada a ver com Christian Grey), com algumas paradas, claro. Lá existe um passeio de barco pelo Lago que na alta temporada parte quatro vezes ao dia, então programe-se porque nessa época não conseguirá se não comprar antecipadamente. Foi o que aconteceu conosco…

O restaurante do Hotel com vista para o Lago e o Glaciar Grey
O restaurante do Hotel Lago Grey com vista para o Lago e o Glaciar Grey
O glaciar Grey
O glaciar Grey

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No caminho de volta, a estrada corre paralela ao Rio Grey e se despede para seguir rumo ao Leste. Quem volta para Puerto Natales, pega a direita na bifurcação, onde fica a administração do parque, uma base de informações, terminal de ônibus e apoio para emergências ou incêndios.

Administração do Parque TdP
Administração do Parque

Como viajaríamos a El Calafate, na Argentina, pegamos a esquerda, avistamos o Rio Paine mais uma vez e chegamos ao Lago Pehoe.

Pode-se dizer que o Lago Pehoe é o centro do Parque. Pehoe significa “escondido” e se pronuncia “pay-oh-way” (agora sei). Este lago também é navegável, embora o catamarã parta de Salto Grande e não de onde ficam a ponte sobre suas águas verdes, Hotel e Restaurante homônimos. Aproveitamos para almoçar lá e subir uma pequena trilha até o alto de um morro para fotografar as montanhas de um outro ângulo.

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Lago Pehoe, hotel e restaurante homônimos

Eu recomendo parar ali para uma refeição, pois o Lago é lindo, a vista das montanhas impossível de definir e ainda tem uma colina com vista de 360 graus do entorno, de onde tirei a foto em que dou um saltinho, mais abaixo.

O restaurante é aconchegante e oferece menu completo, ou seja, há duas opções de entrada, de prato principal de de sobremesa, bebidas à parte, ao custo de 18.900 pesos (34 dólares). Não foi a melhor comida que já comi, mas foi uma das melhores vistas, com certeza!

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Se gostar de cerveja, peça a Austral, que é produzida na região e tem rótulo com a vista do restaurante!

Cerveja com rórulo da paisagem. Só aqui!!!
Cerveja com rótulo da paisagem local. Só aqui!!!

Fome saciada, subimos uma colina para o mirador, vista point, mirante que fica ali no terreno do hotel. E eu gostei desse negócio de pular pra foto! rsrsrs

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Viajar é… saltar para foto apesar da dor muscular causada por 10 horas de trilha

Depois do Lago Pehoe, nos restou fazer o caminho de volta até a Portaria Lago Sarmiento e finalmente a El Calafate. Leia sobre o percurso El Calafate-TdP em . No próximo post, as dicas práticas sobre Torres del Paine.

Se não tivesse tanto mundo para conhecer, eu já estaria planejando voltar e fazer a trilha do Vale do Francês. Afinal, minhas pernas já nem doem mais!

Última dica: para quem gosta desse tipo de viagem, sugiro a ainda mais bela Icefields Parkway, estrada que liga os parques Jasper e Banff, nas Montanhas Rochosas canadenses. Escrevi sobre ela sem tantos detalhes, pois fomos no século passado, em 1997. Clique aqui: Icefields Parkway: “A” estrada nas Rochosas Canadenses

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Posts Relacionados

Para saber mais, leia também os posts clicando em seus títulos:

TdP: Hotéis, Campings e Refúgios: links para todos os tipos de hospedagem em TdP

De El Calafate a Torres del Paine: dicas de combustível, fronteira, aluguel de carro

TdP: Sangue, Suor e Beleza: vai encarar a trilha de 8 – ou 10 horas, no meu caso 

Dicas que faltaram nos posts anteriores você encontra aqui: Torres del Paine: Dicas práticas

 

 

Torres del Paine: Sangue, Suor e Beleza

Neste post descrevo a experiência de fazer uma das pernas do circuito W, a que dá a honra de se chegar à base das Torres del Paine, que dão nome ao parque Chileno, e ao lago formado pelo degelo. Não tenho a menor esperança de que eu consiga transmitir o que foi essa experiência, mas aí vai:

Você conhece o frevo do Caetano: Sangue, suor e cerveja, né? Pensei no título, ao escolher um para este post, que resumisse em poucas palavras minha experiência de subir cerca de 800 metros – e depois descer, num total próximo a 10 horas de caminhada. Veja bem: sou totalmente, assumidamente sedentária, estou um pouco acima do peso e achava que caminhar 4 quilômetros diários por uns 10 dias na praia antes dessa empreitada me ajudariam. Ajudaram, claro, mas eu devia ter treinado numa montanha! Até os cinco dias posteriores, minhas panturrilhas pareciam tijolos, subir ou descer degraus era dor certa e meu marido tinha sangue pisado nos dois pés e unhas dos dedões cinzas, prontas pra dizer adeus. Se eu faria de novo?  C-L-A-R-O!

Cora, você não falava de trilhas, mas caiu como uma luva!
Cora, você não falava de trilhas, mas serviu como uma luva!

Tem gente que viaja para conhecer gente, para fazer compras, para descansar, para se divertir e há quem jamais pense em subir uma montanha. Bem, mas tem muita gente que sente um prazer enorme nisso e eu sou uma delas. Alguns fazem o Caminho de Santiago de Compostela, outras a Trilha Inca e os mais destemidos o Monte Everest. Cada um tem lá suas razões: superar resistência física e mental, esquecer traumas através da experiência, conectar-se com seu interior… Não sei porque gosto de trilhas, mas me sinto muito bem nelas, uma felicidade duradoura, muito maior do que as dores pelo corpo. Trilhas nos aproximam, além da natureza, de nossos ancestrais, nômades e andarilhos. Tudo a ver com quem curte viajar!

Quando você faz uma trilha longa, tem muito tempo pra pensar e lembrei de alguns sonhos não realizados por um vento ou outro que os tirou do caminho. Não reclamo, não. Somos o que somos graças a esses pé de vento, sô! Mas nem tudo foi filosófico: quando meu coração estava disparado e meu rosto fervendo por tentar manter o mesmo ritmo daquela senhorinha que estava bem atrás de mim e acabara de me passar humilhantemente, pensei que eu devia ter sido bode montanhês em outra vida. Caramba! É a única explicação razoável (kkk) para meu coração sorrir ao pensar em viver no Colorado em vez da Flórida – ou passar o dia subindo montanha em vez de ir ao spa do hotel!

Eu, numa vida passada...
Eu, numa vida passada… (mountain goat, espécie das Rochosas norte-americanas)

A ideia de que todos na trilha estão no mesmo barco traz uma proximidade com pessoas totalmente desconhecidas, mortais de culturas diferentes, dando força, dizendo “falta pouco”, “vale muito a pena”, etc. Isso entre os mortais, porque aqueles com seus trekking poles (nem sei falar isso em Português) e suas mochilas-barracas nas costas e sua habilidade e preparo físico invejáveis simplesmente passam, mal dizem um Hello ou Hola e lá se vão, tick, tick, tick (também não sei a onomatopeia para trekking pole batendo em pedras), sempre à sua frente. E se você não der espaço, acidentes podem acontecer.

Esse era um dos meus sonhos: não ser uma mortal subindo a trilha. Eu nunca sonhei em ter roupas legais ou carro legal, etc. Eu voltava do trabalho de sexta-feira e no metrô via mochileiros indo viajar, acampar junto à natureza. Era aquilo que eu queria. Não rolou, mas pelo menos agora lá estava eu na mesma trilha que eles! E como já fiz algumas outras também, acho que posso me dar por satisfeita e entender que os ventos nos afastam e nos trazem de volta. É só ter paciência.

O parque TdP tem mais trilhas do que estradas com distâncias que vão de 1 a 18 quilômetros e duração de 1h a 4h30 sem considerar a volta. Os circuitos mais famosos são o O e o W. Nós fizemos a trilha que sai do Hotel Las Torres, onde nos hospedamos, passa pelo acampamento Chileno (em teoria, 2h depois) e chega à base das Torres del Paine, 2h30 depois. Parece moleza, mas não foi. O parque tem trilhas que podem ser percorridas a pé ou a cavalo e o interessante é que só levantando poeira nelas você chega a cenários inesquecíveis.

O "w" de Torres del Paine
O “w” de Torres del Paine

Não pense que se você não quiser ou não puder fazer trilhas não valerá a pena ir a Torres del Paine. O Parque tem estradas, embora de cascalhos, que chegam à maioria de seus lagos e mirantes nos acostamentos da estrada também propiciam belas vistas e tem até trilha bem rapidinha para ver uma cachoeira, a Salto Grande. Navegação em rios também agradam quem não quer se aventurar nas trilhas. Leia mais no post Torres del Paine: Hipnotizante. O link está no final desta publicação.

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O Monte Almirante Nieto e as regras da trilha


A trilha

Os hotéis, acampamentos e Refúgios costumam divulgar no início da manhã a previsão do tempo, velocidade do vento, horário do nascer e pôr-do-sol. Confira todas essas informações e peça orientação de alguém experiente para decidir se aquele é um bom dia para fazer a trilha escolhida. Nós tivemos muita sorte, o clima estava perfeito no dia da trilha: claro, sem vento, porque no dia anterior apesar de estar claro, ventava bastante e no dia seguinte ao que fizemos a trilha, o céu estava cinzento e não se avistavam as Torres.

Iniciamos a trilha por volta das 8h30 da manhã. O início é bucólico, atravessando duas pontes sobre o rio formado pelo degelo proveniente das montanhas e subindo por trilhas de terra de leve inclinação… E você se ilude, achando que vai ser essa moleza.

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Início de trilha: tranquilo

 

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No ponto da foto acima, uma guia de um grupo australiano disse que em dias de vento forte é preciso passar por ali agachado. Eu não teria acreditado se no dia anterior não tivesse presenciado a força do vento em outro ponto do parque!

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Muitas pessoas contratam um guia para fazer a trilha, mas não vi necessidade. Ela é bem marcada: pedras, árvores ou estacas fincadas nas pedras pintadas de laranja-avermelhado indicam o caminho. Além disso, placas informam o ponto onde você está e há um sinalizador de altitude, latitude e longitude. Com ponta verde significa trilha classificada como fácil; amarela é média e vermelho trilha difícil.

A trilha que pegamos é de nível mediano. Então tá!
A trilha que pegamos é de nível mediano. Então tá!

 

Placas dispostas na trilha indicam quanto falta
Placas dispostas na trilha indicam quanto falta

 

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Contemplação ou introspecção? Nada disso, é fadiga mesmo!

Depois de duas horas de trilha de pedras pequenas, na maioria, com subidas e descidas e vistas lindas, chegamos ao Acampamento Chileno.

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Trata-se de um refúgio e área de camping. O refúgio tem algumas mesas em uma sala com vista para as Torres e um balcão-recepção, onde também se vendem alguns produtos básicos. Há quartos que podem ser reservados para passar a noite, mas não cheguei a entrar neles. O mais marcante é o cheiro de chulé que fica à porta, pois é proibido entrar de calçados e ficam todos andando de meias no chão. Coisa que lembra infância…

 A vista da sala do Refúgio Chileno
A vista da sala do Refúgio Chileno
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Como era de se esperar, gente do mundo todo visita TdP

No lado de fora, além da área para as barracas, mesas e bancos, onde aproveitamos para descansar e fazer uma boquinha. Ah, você pode também usar o banheiro do refúgio, mas há uma taxa cujo valor não me recordo.

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Deixando o Refúgio, a trilha segue em meio a uma floresta e há várias passagens por pinguelas e pontes. É um trecho que alivia o calor do sol e traz uma paisagem diferente.

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Depois da floresta, vem o trecho final, que eu considero o pior (não, o pior é o retorno, que parece interminável!), todo feito de pedras grandes, algumas que precisam ser escaladas.

glass half full ou half empty?
glass half full ou half empty?

Nesse momento eu olhei o que ainda tínhamos de pedras para vencer, mas a vista das Torres também estava ali. Half glass full, com certeza! Falta pouco…

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A vista acima, desculpem, mas só quem pega a trilha recebe de premio. Conseguem ver os veios escuros na base da montanha: são pequenas cachoeiras. Imagine isso na Primavera!

Uma cena linda, que infelizmente não registrei em foto, foi a de um condor voando no vale, logo que chegamos. Não avistamos a presença de nenhum outro animal selvagem na trilha. Ouvi alguns pássaros no trecho de floresta e só.

A galera descansando à beira do lago
A galera descansando à beira do lago

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Na foto abaixo eu estava agradecendo a Deus, às forças do universo, Maomé, Buda… pela chance de estar em um lugar tão especial. Lembrei da fala de um trilheiro: “Esta é a Catedral. Aqui é minha igreja”. A emoção tomou conta de mim. Chorei e não foi um chorinho comum. O choro ia sair tão alto e escandaloso, e num lugar tão silencioso como aquele seria o maior mico, como diz minha filha, então segurei. Piorou! A garganta começou a doer pelo choro contido. Tomei um pouco de água e o choro desceu, não sei para onde, mas demorei a me recuperar. Ali era minha igreja e eu estava mais pertinho de Deus.

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Enquanto isso, maridão tentava tirar uma soneca com vista para as Torres. Os amigos mais próximos sabem que ele dormiria até numa laje. Olha a prova aí! Calculo que ficamos ali uns 30 minutos.

Soneca até na laje
Soneca até na laje

O caminho de volta foi bem difícil. Algumas pessoas desciam rapidamente, num trote, o que além de ser mais rápido, evita o esforço dos joelhos. Mantivemos nosso ritmo lento. Meus joelhos doíam demais e tomei um analgésico, o que facilitou o retorno. Havia pouca gente subindo, provavelmente indo ao Refúgio Chileno. Fiquei imaginando como deve ser lindo ver ao vivo o que vi em várias fotos: a luz do sol nascente sobre as Torres (ou seria o poente?). Menos romântica, imaginei o frio que deve ser à noite, na beira do gelado rio. Ai, que bom minha cama macia e quentinha me esperava lá no fim da trilha! ehehe

Eram 14h30 quando iniciamos a descida e às 18h30 estávamos de volta ao hotel Las Torres. Ah, uma dica: para economizar espaço na mala, eu nunca levo chinelos para as viagens,  a não ser que seja destino praia. Que falta fizeram as Havaianas! Eu queira muito uma folga para meus pés depois de 1O horas de trilha. Leve as suas, vi muita gente zanzando pelo hotel de pantufas.

O que levar na trilha

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Água mineral gratuita

– garrafa de água cheia (reabasteça no rio)
– castanhas, uva passa, barra de proteína, fruta, lanche…
– band-aid e analgésico – no retorno, meus joelhos agradeceram!
– capa de chuva, gorro, boné, protetor solar e labial, óculos de sol, abrigo corta-vento
– câmera fotográfica, claro!

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– os trekking poles são essenciais. Nós não tínhamos, mas vou providenciar para a próxima trilha!
– saco plástico para guardar o lixo que você produzir
– papel higiênico.

Os mapas do parque indicam que esta trilha pode ser vencida em 8 horas. Quem está em melhor forma pode até fazer em menos tempo, mas não sei para que a pressa com tanta beleza em volta.

Links para conhecer melhor Torres del Paine

– Leia sobre meu encantamento no post Torres del Paine: Hipnotizantes

– Dicas detalhadas sobre rota, combustível e condição das estradas em De El Calafate e Torres del Paine

– Relação de hotéis, campings e abrigos, com links para seus sites, clique aqui.

– Dicas práticas de como circular pelo parque, temperatura, onde comer estão neste post.

10 desculpas para ir ao Sul da Patagônia

Outras pessoas que contam sua experiência na trilha:

relato divertido de gente como a gente, ou seja, sedentária.

– dicas (em Inglês) de um experiente em trilhas: clique aqui.

– mais experientes, desta vez em português: link.

 

 

 

Patagônia Argentina e Chilena: plano de viagem

Torres del Paine: o parque dos meus sonhos!
Torres del Paine: o parque dos meus sonhos!

Olha! A minha listinha dos 20 destinos para conhecer antes de morrer vai ficar menorzinha (mas se Deus quiser eu vou acrescentar outros tantos, basta ter saúde e dinheiro, porque vontade não falta, mesmo!). Começo 2015 com uma viagem a dois a um lugar longínquo, gelado, mas de paisagens de tirar o fôlego: a Patagônia Argentina e Chilena.

Não vai ser como nossas expectativas de recém-casados, quando sonhávamos em partir de São Paulo de carro e atravessar fronteiras para chegar aos Andes e admirar as Torres del Paine. Vai ser uma viagem curtinha, de 6 noites, porque é isso que cabe na nossa vida real.

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O glaciar Perito Moreno

Como os pontos a serem visitados ficam bem ao Sul da América do Sul, é um passeio para ser feito no verão, quando o clima é mais ameno. Em janeiro, o índice pluviométrico é o menor de todo ano e as temperaturas ficam em torno de 8 a 20 graus (no inverno cai para -2º C). Mas não se engane: caminhar sobre o gelo ou mesmo pegar trilhas exigem casacos corta-vento e tocas. A quantidade de horas de sol (luz do dia) também interfere no aproveitamento de uma viagem como esta, em que tudo é feito ao ar livre. No verão o sol nasce às 5h30 e se põe apenas às 23h, enquanto no inverno há apenas 8 horas de luz por dia.

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Os pontos circulados são os que visitaremos

Descrevo abaixo as etapas para planejar esta viagem, mais trabalhosa do que uma à Europa! Quando você decidir ir, pode seguir meus passos para planejar sua própria aventura!

  • Fiz orçamento em três agências de viagem, que ofereciam pacotes bem diferentes. Valores por pessoa, sem aéreo, tendo por base quarto duplo. O “a partir de” varia por causa da classe do hotel:
    a. 11 noites (cruzeiro de 3 noites), incluindo Ushuaia, Punta Arenas, Torres del Paine e El Calafate, com guia e passeio ao Perito Moreno e cruzeiro de 3 noites: a partir de US$ 5,400 por pessoa;
    b. 6 noites, El Calafate, Puerto Natales e Torres del Paine, aluguel de carro SUV e passeio no Perito Moreno: a partir de US$ 2,115;
    c. 7 noites com Puerto Natales, El Calafate e Torres del Paine e todas as refeições, aluguel de Jeep e entradas em parques, museus e Perito Moreno: a partir de US$ 5,500.
  • Pesquisei alguns hotéis e sem fazer o orçamento completo percebi que ficaria muuuuito mais barato planejar eu mesma a viagem, sem pacote, do jeito que eu gosto, embora seja sempre mais trabalhoso e às vezes a gente se enrosque em dúvidas como “onde é que tem posto de gasolina nesse fim de mundo?”. Mas assim é bom, porque tenho tempo para planejar, aprendo um monte sobre o destino, gasto menos e ainda dou dicas para você! No final, contas feitas, hotéis, 4 dias de carro intermediário, traslados, saíram por US$ 2,154, para os dois. Não entraram no cálculo as entradas de parques e passeios de barco ou sobre as geleiras, mas nem de longe chegarão aos 2 mil dólares de diferença!
  • Money talks, mas outros pontos a favor de viajar desempacotada foram:
    a. algumas dessas agências montaram pacotes com voos a partir de Santiago, sendo que é mais rápido e perto fazer por Buenos Aires. Para quem dispõe de pouco tempo e não vai  curtir a capital chilena, melhor o aéreo por Buenos Aires.
    b. o carro te dá liberdade de parar naquela paisagem linda para a qual você em um ônibus ou van de excursão daria apenas tchauzinho.
    c. ganhei pontos no aluguel do carro equivalentes a uma diária no Brasil. Se você ainda não tem um programa de fidelidade com uma locadora, programe-se!
    d. viajando de pacote, os quartos oferecidos nem sempre são os melhores, mesmo que os hotéis sejam os mesmos das agências.
mini trekking sobre o glaciar: um dos passeios
mini trekking sobre o glaciar: um dos passeios
  • Comprando o aéreo. Entrei no site da TAM, cliquei em “várias cidades” no box de escolha dos voos (os voos domésticos argentinos são operados pela Lan):
    a. SP-Buenos Aires-Buenos Aires-El Calafate
    b. El Calafate-Buenos Aires-São Paulo. Aqui, como a conexão é longa, ainda dá pra aproveitar umas horas na capital argentina, que não visito desde 2010.
    A princípio, o sistema me ofereceu um voo que, além de não ser direto, teria conexão de 6 horas durante a madrugada, em Córdoba. Não faz sentido sair de férias e ter que dormir em bancos desconfortáveis de aeroporto para esperar pelo voo. E esse retorno levaria 24 horas, céus! Liguei para a central de atendimento da TAM e enquanto falava com o simpático atendente, acabei conseguindo na opção ”solicitar outros voos” um voo direto, sem conexão entre Buenos Aires e SP. E foi aí que descobri que comprando pelo atendimento você paga 7% sobre o valor da passagem. No início do atendimento digital, é informado que existe uma taxa, mas não sabia que era tão alta! Agradeci e pedi desculpas ao atendente constrangida (eles ganham comissão), elogiando sua presteza, mas fui pro site e fechei. As duas passagens (4 trechos, sendo os internacionais na classe executiva) que sairiam por R$5.350, saíram por R$4.377, já com taxas de embarque. Ah, não se esqueça de incluir a assistência viagem. Ah 2: verifique com seu cartão de crédito se ele oferece benefícios como seguro viagem gratuito e até seguro de automóvel alugado. A economia é grande. Se você não tiver, faça seu seguro com a Mondial Assistance, que frequentemente oferece descontos para leitores do Mulher Casada Viaja. Mas você tem que entrar no site deles através do blog, clicando sobre o logo aí da direita (se estive em PC) ou lá embaixão (se estiver em smartphone).
Monte Fitz Roy, em El Chaltén, a 214 km de El Calafate
Monte Fitz Roy, em El Chaltén, a 214 km de El Calafate

 

  • li relatos de quem fez esta viagem em blogs e também em fóruns de viajantes como o do TripAdvisor. Anotei dicas de agências locais, de locadoras de veículos, de empresas que fazem traslados aeroporto-hotel, de sugestões de passeios. Obrigada Internet!
  • decidimos o roteiro:
    – dia 1: SP-Buenos Aires – El Calafate
    – dia 2: El Calafate: passeio no Parque Nacional Los Glaciares, onde fica a mais impressionante geleira do mundo, a Perito Moreno. Mini trekking sobre o gelo.
    – dia 3: retirada do carro alugado e viagem a Torres del Paine
    – dia 4: Torres del Paine
    – dia 5:Retorno a El Calafate e espero poder fazer algum passeio, como o caiaque no Upsala Glacier. Atualização pós viagem: o passeio ao Upsala leva o dia todo, então se você quiser, terá de deixar TdP de madrugada.
    – dia 6: bate-volta a El Chaltén (214 km)
    – dia 7: El Calafate-Buenos Aires (passeio na cidade devido a conexão de 8 horas, eba!) – SP.
    Assim como viajar às Rochosas Canadenses, imagino que o ponto principal desta viagem seja a vista das montanhas das estradas e as que estão escondidas nas curvas das trilhas. Olhando o roteiro, parece não haver muito o que fazer além de se alimentar da paisagem de montanhas, lagos, geleiras e, com sorte, alguns animais selvagens.
  • Programar os passeios foi o que deu mais trabalho. Li no TripAdvisor os passeios mais usuais e as agências que os organizam. Os websites das agências locais não têm ferramenta de reserva e foi frustrante enviar e-mails e não receber retorno.
  • Para as reservas dos hotéis, usei o Booking.com. Falarei sobre hospedagem nos posts de El Calafate e Torres del Paine. Atualização: agora o blog tem parceria com o Booking.com. Você reserva clicando no logo à direita (se estiver em PC) ou no final do blog (se estiver em smartphone). Não paga nada mais por isso e eu ganho uma comissão. É um gesto simpático em retribuição a todas as dicas que os blogueiros compartilham, não acha?
  • Reservei o carro com a Hertz. Como viajaremos da Argentina ao Chile, é necessário informar à locadora que você precisará de permissão para cruzar a fronteira (= papelada providenciada pela locadora e pagamento de taxa para isso – $120 doletas). Caso vá de carro a partir do Brasil, é preciso emitir a Carta Verde, para cruzar a fronteira entre Brasil e Argentina.
  • Sem querer fazer propaganda mas já fazendo, comprei roupas especiais para esta viagem na loja virtual da Decathlon: luvas (comprei uma que tem polegares e indicadores sensíveis ao toque de celulares), calça térmica, segunda pele, blusa quentinha segunda camada (fleece). Usarei uma bota forrada de pele e levarei um tênis de caminhada.
De caiaque entre icebergs!
De caiaque entre icebergs no Glaciar Upsala, em El Calafate

Bem, isso tudo foi o planejamento. Parece mais simples agora que está organizado, mas deu muito trabalho.

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