Aposto que 10 entre 10 pessoas que fazem uma viagem ao território chinês visitam a Grande Muralha da China. Afinal, é uma das Maravilhas do Mundo, um ícone do país, e não é lá difícil de visitar alguns de seus trechos, a partir de Pequim.
Neste post, apresento algumas destas opções, compartilho minha experiência na Grande Muralha da China e falo sobre mitos e verdades que a envolvem. Um pouco de conhecimento histórico e geográfico certamente lhe será útil, principalmente se você não visitar a Muralha acompanhado de um guia.

Muralha da China com guia ou sem?
E por falar nisso, é possível conhecer a muralha de maneira independente, mas eu sugiro um guia por um motivo muito peculiar. A China é um país cercado de preconceitos. Sabemos pouco sobre como vivem as pessoas, o quanto de liberdade têm, entre outras questões. Estar com um guia chinês não garante que a gente ouça apenas verdades, afinal, cada um tem sua própria perspectiva. Mas é garantia de conseguir um bate-papo, algo mais difícil num restaurante ou hotel.
Como não aprecio grupos grandes, o passeio privativo oferecido pela agência Beijing Layover Tour foi perfeita para mim. A amiga Ruthia do blog O Berço do Mundo, com quem conheci Pequim, fez o contato e reservou o passeio, que incluía traslado em carro privativo, com acompanhamento de guia durante o trajeto do hotel (ou aeroporto) de Pequim até a Muralha. Foi uma oportunidade única para ouvir sua perspectiva sobre a sociedade da China atual.


Durante o passeio, além de compartilhar informações sobre a muralha e de responder a inúmeras perguntas, o guia foi incansável ao fazer fotos, sugerindo os melhores locais e até poses. Seu inglês era muito bom e ele parecia um gentleman inglês.
Além do traslado e do guia, o pacote inclui o teleférico na subida e a opção de descer de chairlift ou tobogã. Na chegada, percebi a diferença entre ir com guia – e deixo a dica para você! Quando começa a rampa para a fila do teleférico, vire à direita e verá um elevador. Além de “economizar pernas” (você precisará delas, acredite), você ganha tempo usando o elevador.
Ingressos para a Muralha da China
Caso você prefira explorar a muralha no seu ritmo, pode visitar o trecho de Mutianyu por conta própria (leia mais abaixo sobre os trechos). Comprei meus ingressos de outras atrações na China pelo site da GetyourGuide, que também comercializa os bilhetes de ingresso para a Grande Muralha com ou sem os meios de elevação.


Veja onde a visita à Grande Muralha entrou no meu roteiro de 23 dias de viagem à China
“E aí? E a Muralha?”
Você vai a Paris, e perguntam sobre a Torre Eiffel. Em NY, sobre a Estátua da Liberdade: a Cairo sobre as pirâmides, ao RJ sobre o Cristo. Era esperado que me perguntassem sobre a Muralha, como se ela fosse a grande representante do país. Assim como o Cristo não define nem mesmo o Rio de Janeiro, a muralha não foi o que mais me marcou nesta viagem pela China. Entretanto, considerando apenas Pequim, certamente foi o passeio mais interessante.
Tento explicar: foi mais emocionante a expectativa, a ideia de que eu percorreria uma parte da muralha do que o momento em si. É como quando a gente compra o voo para uma super viagem: aquele é o momento mais emocionante.
Mas a expectativa tem um defeito: ela não deixa lembranças tão fortes quanto a experiência. Hoje eu mal consigo dizer em que momento comprei a passagem para a China. Em compensação, lembro da sensação de caminhar pela Muralha, das montanhas ao redor, do silêncio relaxante, em contraste com o esforço de subir e descer seus degraus.
A expectativa é mais emocionante porque vive no futuro; a experiência é mais valiosa porque permanece na memória.

Precisa de ajuda para montar seu roteiro pela China? Organizo viagens por meio do meu serviço de roteiro personalizado. Mas se você precisar apenas de aconselhamento, revisão de seu roteiro ou tirar algumas dúvidas, uma consultoria de 60 minutos pode resolver.
A foto à esquerda, abaixo, explica a chegada a uma cidade da China, como exemplo do roteiro. A da direita tem o contato para você falar comigo. Espero seu contato!


A história da Grande Muralha da China
A Grande Muralha, inscrita na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1987, não foi construída de uma só vez, nem por um único imperador. É o resultado de séculos de obras, ampliações e reconstruções realizadas por diferentes governantes chineses.
Antes da unificação do território chinês (221 a.C.), reinos locais já erguiam fortificações para proteger suas fronteiras. O primeiro imperador Qin Shi Huang ordenou que partes dessas fortificações fossem conectadas ou ampliadas, formando um sistema de defesa mais abrangente contra incursões vindas do norte.
As dinastias seguintes modificaram as defesas conforme suas necessidades militares e políticas. O material empregado também dependia do que havia disponível, intercalando camadas de terra com feixes de juncos e galhos. Durante a dinastia Ming (1368–1644), a reconstrução e o reforço das fortificações resultaram no que conhecemos hoje como Grande Muralha da China. Foi nessa época que muitos trechos receberam muralhas de tijolos e pedra, torres de vigilância e estruturas defensivas mais elaboradas.
A foto abaixo, feita no trecho Mutianyu, mostra o único lugar de toda a Grande Muralha em que ainda se podem ver, protegidos por vidro, degraus originais da dinastia Ming.

Qual é a extensão da Grande Muralha da China?
Tive a chance de ver um trecho da Muralha do alto, no voo de Lijiang a Pequim (sente-se do lado esquerdo do avião). Mas era apenas um trecho pequeno. Segundo a UNESCO, o conjunto de fortificações associado à Grande Muralha ultrapassa 20 mil quilômetros, considerando os diferentes segmentos construídos ao longo dos séculos. Essa extensão supera a distância em linha reta entre São Paulo e Tóquio, segundo pesquisei.

Que trecho da Grande Muralha da China visitar?
Para quem está hospedado em Pequim, Mutianyu é uma boa opção para conhecer a Grande Muralha da China. O trecho combina torres de vigilância bem preservadas, mas o grande atrativo é a segunda menor distância de Pequim: 75 km. Trechos mais distantes são Simatai e Jinshanting, a 130 km de Pequim.
O trecho mais acessível é Badaling, onde se chega em trem-bala a partir de Pequim em 20-30 minutos. A proximidade e esta facilidade de transporte público podem significar maior movimento de turistas. Por isso, se você vai na alta temporada, procure chegar lá assim que abrirem os portões.
Nós chegamos por volta das 9h. Era início de setembro, e estava bem tranquilo, com pouquíssimos turistas.

Como a Muralha fica no alto das montanhas neste trecho da China, em Mutianyu usamos um teleférico para chegar confortavelmente até sua Torre 14. Você pode comprar o bilhete ida e volta pelo teleférico, ou apenas subir com ele e descer de tobogã. Fica um pouco mais caro, mas a experiência é mais interessante.
O detalhe à esquerda do mapa acima mostra as trilhas para subir até a muralha. Mas na China, aprendei que trilha quase sempre significa um caminho de degraus de pedra, muitos degraus. No caso da muralha, são cerca de 1.100 degraus. Sugiro reservar energia para os degraus da própria muralha, e não para chegar nela.
Nesta viagem à China, regiões em que subi muitos degraus foram Zhangjiajie, Dali, Lijiang e Shangri-La. Encontre as dicas na página-índice China
A caminhada entre as Torres 14 e 20 de Mutianyu é uma das mais bonitas da Grande Muralha, mas também uma das mais exigentes fisicamente. Entretanto, o guia sugeriu fazer o trecho central, da 14 à 7, quase toda em descida, o que aceitei.
Não que eu seja preguiçosa: havia caminhado 16 km nos dois dias anteriores sob efeito do jetlag. Mas além de fazer menos esforço nesse trecho, não haveria tempo para ir até a torre 20 e descer até a 5, pois tínhamos já comprado ingresso para o Palácio de Verão às 15h, após retorno a Pequim.

E você não deve se apressar enquanto caminha na Muralha! É preciso atenção pois os degraus nem sempre estão nivelados ou alinhados — e você não vai querer acionar seu seguro-viagem na China, vai?
Duas horas e meia depois de nossa chegada, era hora de descer. Nesse tempo, fizemos muitas fotos ao som de músicas chinesas (há alto-falantes a cada poucos metros), observamos detalhes das técnicas bélicas e subimos às torres de vigilância.
Infelizmente a fila de tobogã roubaria 1 hora de nosso dia, e optamos por descer de chairlift. Não aconselho a experiência para quem tem medo de altura. que é fechado e transmite maior sensação de segurança, na cadeirinha nos sentimos quase voando.

Curiosidades sobre a Grande Muralha da China
1. A muralha pode ser vista da Lua?
Essa é uma das afirmações mais repetidas sobre a Grande Muralha, mas não corresponde à realidade. Embora a construção seja extensa, é pequena quando comparada à distância entre a Terra e a Lua. Além disso, em muitos lugares, a muralha tem cores semelhantes às do terreno ao redor, o que dificulta sua identificação mesmo a partir de distâncias muito menores.
2. As torres serviam apenas para observar os inimigos?
Além de vigiar o território, as torres podiam servir como pontos de comunicação, abrigo e armazenamento de suprimentos e equipamentos militares. Em Mutianyu, por exemplo, visitamos uma torre de 3 andares, com telhado inclinado (mostrada na primeira foto deste post), que, segundo as informações que recebemos durante a visita, também servia de moradia para um oficial.
3. O lado sombrio da Muralha da China
A construção e a manutenção da Grande Muralha mobilizaram soldados, trabalhadores recrutados e pessoas submetidas a trabalhos forçados, incluindo condenados. Enfrentar o frio, transportar materiais por terrenos íngremes e trabalhar longe de casa tornava a tarefa extremamente dura, e muitas pessoas perderam a vida. No entanto, não há registros históricos confiáveis que permitam calcular o número total de mortos ao longo dos séculos.
A lenda de que os trabalhadores mortos foram enterrados dentro da própria muralha também é bastante conhecida, mas não há evidências arqueológicas sólidas de que isso tenha ocorrido sistematicamente. Ainda assim, a história da construção revela o custo humano de uma obra monumental, erguida em condições muitas vezes precárias e nem sempre por vontade de quem nela trabalhou.

Como eu disse, a China é muito mais do que seus ícones, mas poucos monumentos conseguem transmitir uma sensação tão forte de grandiosidade quanto a Grande Muralha da China. Espero ter ajudado você a planejar sua visita ou te inspirado a viajar para a China. Com o roteiro certo e olhar sensível, você vai se surpreender positivamente.








