Dolomitas: guia para planejar sua viagem

A Itália tem uma longa lista de cidades e locais tombados como Patrimônio Mundial pela Unesco, a maior da Europa, com nomes manjados como Verona, Florença e Pisa, que entram nos sonhos e planos de todos os brasileiros que desejam visitar o país da bota pela primeira vez. As Dolomitas, cordilheira nos Alpes Italianos, acabam entrando na lista de pessoas que praticam esportes de inverno ou curtem um clima mais frio ou que, como eu, adoram uma paisagem montanhosa ou são trilheiros. Uma pena, porque mesmo para quem aprecia os contornos destas montanhas e as curvas de suas estradinhas da janela do carro este é um destino fantástico, que poderia ser incluído no roteiro de quem vai a Milão, Verona ou Veneza.

Dolomitas-Itália
Rifugio Auronzo

Este post traz informações complementares a outros já publicados a respeito da minha viagem à Itália em junho de 2016 e no final dele você encontra os links.

Localização
Sabe onde fica Veneza, na região Vêneto? Cerca de 200 quilômetros ao Norte você já está em Cortina d’Ampezzo, no coração das Dolomitas. Mas a paisagem alpina começa já em Belluno, ainda na província de Vêneto, e se estende mas a Oeste, até a província de Trentino Alto Ádige.

Alpes Italianos
A região Tentino-Alto Ádige, no Norte da Itália


Passeios e roteiro pelas Dolomitas
No post anterior, você encontra o roteiro detalhado de 3 dias nas Dolomitas, descrevendo os pontos mais legais para paradas. Deixo aqui sugestões de outros lugares que não conheci. 

Ainda na região que explorei (Misurina, Cortina, Gardena, Funes e Siusi), outros pontos literalmente altos são o Glaciar Marmolada, que pode ser visto da estrada 641, atrás do Lago di Fedaia, e o Passo Pordoi na 48. Os lagos me decepcionaram, mas conheci poucos, então talvez tenha sido isso. Ou talvez seja porque os lagos das Montanhas Rochosas Canadenses sejam imbatíveis e qualquer comparação, injusta. Um lago bonito aonde se chega por uma trilha relativamente fácil é o Sorapiss.

Conhecer os museus da Primeira Guerra Mundial e ao mesmo tempo caminhar no alto das montanhas é possível, pois alguns dos museus são trilhas, chamados Museu a Céu Aberto, o mais famoso no Rifugio Falzarego, pegando a gôndola para Lagazuoi. Clique aqui para informações.

Museu Dolomitas Alpes Italia

Depois de explorar essa região, ainda tem montanhas e vales para além da cidade de Bolzano, como San Genesio e Sopra Bolzano. 

Já que chegou até ali, numa esticadinha até Merano você viverá como um nobre: repousará seus pés cansados de trilhas nas Termas de Merano e apreciará o Castelo Trauttmansdorff. 

Castelo e Jardins em Merano
Castelo Trauttmansdorff e Jardins em Merano
E para se despedir das montanhas, nada melhor do que passear pelo centro histórico de Trento , cidade com vista para as montanhas!

Como Chegar às Dolomitas
🚗 As Dolomitas estendem-se por 200 quilômetros de Leste a Oeste, então é preciso definir sua porta de entrada, que pode ser:

  • a partir de Veneza, chegando a Cortina d’Ampezzo, na parte Leste das Dolomitas;
  •  a partir de uma das cidades a Oeste das Dolomitas, como Bolzano ou Trento, chegando a Siusi.

🚅 Não há trens percorrendo as Dolomitas de Leste a Oeste, mas há opções para chegar lá de transporte público e depois contratar passeios ou alugar um automóvel. Por isso, tenha programado o aluguel do automóvel para escolher o bilhete, pois nem todas cidades dispõem de locadoras. Eis algumas linhas que pesquisei e cujos bilhetes podem ser adquiridos online na Trenitalia. Todas as viagens levam cerca de duas horas e os valores foram pesquisados em Abril/2016:

  • de Innsbruck na Áustria até Bolzano (estava nos meus planos iniciais um bate volta antes de incluir a Toscana na mesma viagem): € 35
  • de Verona a Bolzano: € 12
  • de Veneza a Calalzo di Cadore-Cortina: € 12
Dolomitas Alpe di Siussi restaurantes
Eu de boa em Alpe di Siusi

Milão é a cidade italiana com voos diretos partindo do Brasil mais próxima das Dolomitas e por isso deixo informações de como chegar a partir dela até Val Gardena, na parte central da cordilheira:

🚍 de ônibus: Duas companhias fazem a rota do Aeroporto Malpensa até Val Gardena: Busgroup.eu e Alto Adige Bus
🚅 de trem: comprar bilhete na Trenitalia até Bolzano e de lá um ônibus. Informações aqui.

Dolomitas
O “miolo” das Dolomitas

 

Que estradas escolher
Este era um ponto preocupante para mim, porque eu não queria correr o risco de escolher uma estrada nas Dolomitas para ir do ponto A ao ponto B que fosse menos cênica que outra. Confesso que embora eu não tenha guiado por todas as estradas, é impossível cometer este erro porque para onde se olhe se avistam as montanhas. Basta sair da autoestrada e rodar pelas SP e SS, as estradas estreitas, sinuosas, cheias de cotovelinhos fofos dobrados a 180º. Mas o roteiro que fiz passa pela chamada Grande Estrada das Dolomitas, que vai de Cortina a Bolzano.

A Grande Estrada das Dolomitas
Em Passo Giau

Hospedagem
Há inúmeras possibilidades para todos os bolsos e estilos, desde campings, refúgios no alto das montanhas (concorridíssimos), B&B, hotéis-spa, a lista é longa. Como só usaria o hotel para banho e dormir, escolhi pousadas e hotéis econômicos, sem piscinas ou spas, pensando também nas interações sociais que estes lugares propiciam. Ficamos em dois pontos das Dolomitas: no Lago Misurina, a Leste, e em Funes, a Oeste, sobre os quais falarei em futuros posts. Veja o custo do Hotel Sorapiss e da Pension Sass Rigais no Booking.com, onde sempre reservo meus hoteis. 

Quintal da Pension Sass Rigais
Quintal da Pension Sass Rigais. Nada mal, né?

Trekking
Caminhar pelas montanhas nas diversas trilhas existentes é a principal atividade para quem não vai às Dolomitas para esquiar.  As trilhas têm vários níveis de dificuldade e a primeira a ser construída, a Via delle Dolomiti 1, foi traçada nos anos 1960, e até os anos 1980 outras 9 foram acrescentadas. O quadro abaixo traz informações sobre cada uma delas.  Você notará que há dois nomes para cada uma delas, um alemão e um italiano. Se você não tem familiaridade com trilhas ou dispõe de pouco tempo, saiba que não é preciso fazê-las completas, eleja apenas um trecho.  Fonte.

Nº da Trilha Nome Início Final Distância Duração
AltaVia 1 Via Classico Pragser Wildsee / Lago di Braies Belluno 150km 13 dias
Alta Via 2 Via delle Legende Brixen / Bressanone Feltre 185km 15 dias
Alta Via 3 Via dei Camosci Toblach / Dobbiaco Longarone 120km 10 dias
Alta Via 4 Via Grohmann Innichen / San Candido Pieve di Cadore 90km 8 dias
Alta Via 5 Via di Tiziano Sexten / Sesto Pieve di Cadore 100km 10 dias
Alta Via 6 Via dei Silenzi Sappada Vittorio Veneto 190km 14 dias
Alta Via 7 Via di Lothar Pateras Pieve d’Alpago Segusino 110km 11 dias
Alta Via 8 Via Panoramica Brixen / Bressanone Salurn / Salorno 160km 13 dias
Alta Via 9 Via Transversale Bozen / Bolzano Santo Stefano di Cadore 180km 14 dias
Alta Via 10 Judikarienhöhenweg Bozen / Bolzano Lago di Garda 200km 18 dias

Agora, se você acha caminhadas de 13 dias light demais, pode querer escalar as montanhas pela famosa Via Ferrata. Eu nem me atrevi a pesquisar, mas achei este site sobre o assunto em meio a minhas pesquisas.

Alpes Italianos Dolomitas
Ah, que delícia!!!
E este é pelo jeito o melhor guia de trekking nas Dolomitas, indicado em vários blogs que li. E neste site das Dolomitas você encontra um mapa de trilhas na região de Cortina.

Como minha intenção inicial era “trecar” solo, pesquisei algumas agências que gerenciavam o transporte, as reservas e as caminhadas, uma britânica e uma espanhola. Também tem agência no Brasil. 

Deixo claro que não tenho indicação e não utilizei nenhum destes serviços, pois viajei de forma independente. Os links de agências e serviços de transporte são apenas fruto de minha pesquisa do planejamento desta viagem.

Passe para os Lifts (gondolas ou teleféricos)
Se você vai ficar na região de Cortina para fazer trilhas a pé ou de bike, existem passes de 3 a 7 dias que dão acesso a todos os teleféricos da região, pois as melhores trilhas estão no alto das montanhas. Acesse este site para ver os preços atualizados.

Dolomitas Seiser Siusi
O cable car que leva a um ponto ainda mais alto: Bullaccia

Língua e Cultura
Quando se viaja para grandes centros urbanos, podemos observar o modo de agir, falar, comer das pessoas em metrôs, ruas, praças e restaurantes, mas como nas Dolomitas não há concentração de gente, na minha breve passagem pela região não consegui sentir a cultura local e as únicas marcas foram uma atendente vestida com trajes tiroleses e as sinalizações indicativas de cidades que vinham em uma língua estranha, diferente, o ladino – além do italiano e alemão. Já dei essa dica em outro post, mas vou repetir: familiarize-se com os nomes dos lugares que quer ir nestas três línguas, porque ficará mais fácil ler as placas e decidir se vai virar adestra ou sinistra.

Mas fiquei curiosa e fui pesquisar: não são poucos os que falam ladino nessa região: 30.000 habitantes ainda escrevem e falam a língua que perdeu o status de dialeto e oficializou-se como terceira língua oficial na região das Dolomitas, sendo ensinado nas escolas.

Para saber mais

Websites oficiais
Auronzo di Cadore e Lago Misurina
Belluno
Cortina d’Ampezzo
Sobre as Dolomitas 

misurina Italia_Dolomitas

Geologia

Esta é para os nerds de plantão! Se quiser saber sobre a formação das Dolomitas, clique aqui!


Um pouco da historia das Dolomitas
Desde a Guerra da Independência Italiana de 1861, quando a Itália passou a ser um Estado, a fronteira entre Áustria e Itália estava em disputa e com a Primeira Guerra Mundial as Dolomitas viram sangrentas batalhas. Dezenas de milhares de soldados morreram de 1915 a 1918, não apenas em combate, mas também em avalanches e pela exposição aos elementos naturais como nevascas e frio – e, imagino, fome. Embora os Italianos estivessem em maior número, os Austríacos conseguiram as melhores posições estratégicas e tomaram o Monte Lagazuoi onde hoje fica o museu.

E depois de tanto sangue derramado, foi num tratado em Paris em 1919 que se decidiu o riscado da fronteira Áustria-Itália, quando a região das Dolomitas passou a pertencer à Itália, como prêmio pela Itália ter virado a casaca e se aliado à Tríplice Entente (aliança entre Inglaterra, França e Império Russo). Claro que a coisa é complexa e envolve interesses territoriais e econômicos, então este é só um resumão para unir pontos como cultura tirolesa-fronteira-museu de guerra.

WebCams
 Encontrei sites que dispõem webcams de vários pontos das Dolomitas, que ajudam a ver se já tem neve, se está chovendo, céu azul, etc.
– webcams da região de Auronzo e Lago Misurina (perto de Cortina d’Ampezzo)
– webcams de várias regiões das Dolomitas

Posts Relacionados às Dolomitas (clique sobre os títulos)

 

Onde ficar nas Dolomitas
Vista da Pousada Sass Rigais, em Funes

 

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Dolomitas, nos Alpes Italianos – roteiro de 3 dias

“Se a Capela Sistina tem o teto, as Dolomitas são o telhado da Itália.”

Quando dizia às pessoas que iria às Dolomitas, Patrimônio Mundial da UNESCO,  percebia uma interrogação em seus semblantes, então eu explicava que se tratava de uma cadeia de montanhas nos Alpes italianos, e acho que pensavam o que eu iria fazer nos Alpes se nem era inverno por lá e eu nem sabia esquiar. Aí comecei a postar fotos das montanhas no Facebook e o encantamento tomou conta delas também. Que bom! Foi assim que conheci alguns dos lugares mais lindos do mundo: sendo apresentada através de impactantes imagens.

Trilha próxima ao Rifugio Auronzo
Trilha próxima ao Rifugio Auronzo

Compartilho aqui meu roteiro de 3 dias pelas Dolomitas e no próximo post você encontra um guia com várias dicas sobre esta cordilheira. No final deste post, tem também links para outras publicações sobre esta viagem.

Roteiro de 3 dias nas Dolomitas
Roteiro dia 1 nas Dolomitas: Veneza-Cortina-Lago Misurina-Rifugio Auronzo
Depois de duas noites em Veneza, tomamos o vaporetto até a estação final (Piazzale Roma) e retiramos o carro na locadora, o que levou quase uma hora! Como parte do dia 1, leia o post sobre bate-volta a Cortina d’Ampezzo a partir de Veneza, com várias dicas práticas e em breve escreverei sobre o Lago Misurina e o Refúgio Auronzo, outros lugares por onde passamos no primeiro dia.

Lago Misurina
Lago Misurina

Roteiro dia 2 nas Dolomitas: Lago Misurina-Passo Giau-Passo Falzarego-Selva Val Gardena-Funes
Dia de muita estrada, com trechos da famosa Grande Strada delle Dolomiti, que vai de Cortina a Bolzano, mas infelizmente o clima não ajudou. Choveu a maior parte do tempo e quando não estava chovendo o céu estava completamente encoberto. Mesmo assim foi possível apreciar toda a majestade dessas montanhas. Vou escrever post próprio sobre Funes, o destino final deste dia e onde passamos a segunda noite. Você não pode perder, porque o lugar é estonteante!

Partimos do Lago Misurina logo após o café da manhã e pegamos a estrada até Cortina, que é lindamente sinuosa com campos e paredões rochosos e há um ponto para ver o vale onde está a cidade.

Cortina vista da estrada que leva ao Lago Misurina
Cortina vista da estrada que leva ao Lago Misurina. Montanhas encobertas

Na cidade há placas orientativas para vários passos e refúgios, daquelas que você precisará estacionar para ler, pois são tantas que só uma olhadinha não será suficiente. Se você ainda não dirigiu na Itália, leia o post dirigindo na Itália e você vai entender melhor do que estou falando rsrsrs.

Passo Giau
Vaquinhas pastam ao lado da estrada para Passo Giau

Nossa primeira parada do dia foi Passo Giau. Eu vou ficar aqui repetindo que as estradas são lindas. Desculpe, não é pobreza de vocabulário ou falta de assunto, mas todas elas têm atrativos e todas valem ser percorridas, seja pela paisagem, seja pelo prazer de dirigir. Nesta em particular foi onde encontramos um grupo de motoqueiros e até um carro de corrida (só sei modelo de carro se leio o que está escrito na traseira), mas também vimos ciclistas e vários cavalos e vacas pastando à beira da estrada.

A vista em Passo Giau é muito legal e deve ser fantástica em dias claros. Os motoqueiros que nos ultrapassaram estavam colando seus adesivos na placa, uma tradição do tipo “estivemos aqui”.

Passo Giau

Passo Giau às vezes é incluído na competição ciclística Giro d’a Itália, que como diz o nome percorre alguns pontos de Norte a Sul do país. Outra competição anual é a Maratona das Dolomitas, cuja próxima edição está agendada para o final de junho de 2017. Mas acho que por causa do tempo ruim havia poucos ciclistas pelas estradas nesse dia.

Depois de brincar de esconde esconde, esperando as nuvens permitirem-me avistar o cume de 2.236 metros, voltamos pela estrada até Cortina, mas para quem tem mais tempo é possível continuar pela mesma estrada (638) e na bifurcação pegar a 251 e a 203, seguindo até Passo Falzarego, nossa parada seguinte.

Passo Giau (2)

Pouco antes de chegar a Passo Falzarego, parei para fotografar o Rifugio Col Gallina, onde também tem uma capelinha, mas o destaque fica por conta da montanha piramidal. Aliás, os passos sempre tem capelas, algumas para padroeiros de montanhistas, outras para padroeiros de gado. Entendo a religiosidade italiana, mas não há melhor mais próximo de Deus, Buda, Alá, ou seja qual for sua crença, do que a natureza e, na minha opinião, as montanhas são o templo perfeito.

Rifugio Col Gallina
Rifugio Col Gallina

Em Falzarego tem uma gôndola/um teleférico que te leva (neste dia literalmente) às nuvens sem recorrer a nenhum tipo de substância ilícita. Em um dia tão nublado como aquele, não valeria a pena subir a Lagazuoi, a 2.752m, então eu tirei algumas fotos, entrei na lojinha de suvenires (cara!) do local, onde muita gente tomava um café para esquentar. Não sei qual era a temperatura naquele dia, mas estava muito frio para um final de primavera e eu vestia minha sempre-presente-nos-destinos-de-montanha-jaqueta-corta-vento-vermelha. É preciso economizar para viajar. Melhor a mesma roupa do que a mesmice!

O teleférico em Falzarego, que sobe até o Rifugio Lagzuoi
O teleférico em Falzarego, que sobe até o Rifugio Lagzuoi

E como a viagem continua depois que termina, descobri que Falzarego significa falso rei na língua ladina (dialeto do norte da Itália, nas Dolomitas, no Sul do Tirol nas províncias de Beluno e Trentino. Leia mais no próximo post, o Guia das Dolomitas) e se refere ao rei de Fanes, que segundo a lenda virou pedra por ter tomado o trono do verdadeiro herdeiro. Esta é uma das lendas passadas oralmente por gerações, nos invernos longos das montanhas, quando as famílias se reuniam em um único cômodo para aproveitar o calor que vinha do fogão. No final do século 19 um antropologista austríaco coletou esta e outras historias e seus estudos renderam publicações que hoje são usadas  nas escolas ladinas. Na região de Alta Badia, um pouco mais ao Norte deste ponto, você encontrará algumas estações de aluguel de bikes elétricas e lá você também pode usar um MP3 para ouvir esta e outras lendas. E no Brasil, sua escola ou a escola de seus filhos ensina lendas indígenas?

A caminho entre Falzarego e Gardena, fotografei um dos museus históricos da Primeira Guerra Mundial – as Dolomitas têm vários túneis, trincheiras que podem ser visitados, principalmente no alto das montanhas (que pena não ter subido a Lagazuoi), mas este estava ao lado da estrada Passo Valparola. Garoava e fazia frio, e eu que gosto de um papo nem tive vontade de conversar com um motoqueiro alemão que me explicava (o que eu já sabia) que aquelas montanhas antes pertenceram à Áustria (na verdade, ao império austríaco) e que as Dolomitas haviam sido palco de batalhas da Primeira Guerra.

Museu I GM (2)
Nem tava frio, magina! Até gelo acumulado da última nevada ainda tinha.

Museu I GM (3)

Assista a este video disponibilizado no YouTube (em Inglês) para entender melhor o que são estas trincheiras e viajar no tempo ao imaginar a vida desses soldados batalhando em condições inóspitas. Mais abaixo eu resumo o imbróglio envolvendo as Dolomitas.

a caminho de Funes, o tempo fechou ainda mais
a caminho de Funes, o tempo fechou ainda mais

Nos próximos 100 km eu dirigiria debaixo de chuva, com nuvens baixas sobre as montanhas altas que mal podiam ser vistas, por estradas serranas estreitas e cheias de cotovelos. Passamos por vales lindos e montanhas sempre impressionantes, e também por vilarejos à beira da estrada onde em dia sem chuva teria sido delicioso passear, mas só paramos para almoçar no restaurante do Hotel Chalet Gerard, que apesar de luxuoso e do cardápio primoroso, não saiu tão mais caro que em outros restaurantes italianos.

O restaurante onde almoçamos
O restaurante onde almoçamos

Este trecho entre Passo Gardena e Selva di Val Gardena… ah, nem vou falar que é um grande prazer dirigir ali, que a paisagem é linda, que a estrada é cheia de cotovelos a 180º e que a proximidade com os paredões rochosos chega a assustar, mas um susto como de uma surpresa boa. Pronto, falei de novo. Eu preciso falar, sempre, porque é muito bonito, mesmo.

A parte chata eu vou falar rapidinho: nos perdemos para chegar a Funes, rodamos muitos quilômetros a mais na autoestrada e depois por estradas tão estreitas e à beira de precipícios debaixo de chuva e com a noite se aproximando. Foi desgastante.

Acredite: o GPS nos mandou por ali!
Acredite: o GPS nos mandou por ali! Sim, o carro passou!

Quando finalmente chegamos à pousada onde passaríamos a noite, não se enxergava nada por causa da chuva e neblina. A rua era sem saída e estreita e como passamos batido pela pousada (não me culpem, olhem a visibilidade!), tive que voltar de ré. Gente, que saudade do meu marido dirigindo!!!!!! Eu quero ver paisagem, fotografar, não quero mais brincar de dirigir em viagem! rsrsrs

E tinha sido assim o dia todo...
E tinha sido assim o dia todo…

O jantar foi uma coisa esquisita. Havia 4 ou 5 mesas tomadas por hóspedes e um silêncio inquietante, como se a gente estivesse ali para um teste ou incomodados com algo – será que com a chuva que caíra o dia todo? Normalmente em pousadas e B&B há uma proximidade entre as pessoas, mas não sei porque isso não aconteceu nem durante as refeições ali. Mas cachorro é tudo de bom e um gordinho entrou na sala e todos começaram a rir: “I think he’s on a holiday here, too!”. Explico: o jantar era típico italiano, com entrada de salada e pizza, prato principal, sobremesa. Quem aguenta comer tanto?!

Sass Rigais, as montanhas no quintal da pousada
Sass Rigais, as montanhas no quintal da pousada

Roteiro dia 3 nas Dolomitas: Funes-Alpe di Siusi-Trento
A pousada em Funes fica num lugar tão remoto que nem visualização do homenzinho amarelo do Google Maps tem, só fotos. Pagamos o preço da exclusividade para chegar lá, agora era aproveitar a vista, porque no dia seguinte acordei com a luz que entrava pela porta balcão do quarto e vi o céu azul. Quase pulei de alegria. Fui à sacada para fotografar meus pés com as montanhas Sass Rigais ao fundo, me vesti, peguei uma fruta e às 6h30 já estava fazendo uma trilhazinha antes do café da manhã.

Sass Rigais Funes-16
uma das trilhas próximas à pousada

Sass Rigais Funes

Depois do café, parti com dor no coração, porque não teria mais tempo de andar por ali, mas o Grand Finale nos aguardava: Alpe di Siusi! No caminho, Santa Magdalena, um vale salpicado de casinhas alpinas e igrejinhas simpáticas, iguais a tantas outras, mas com picos pontiagudos lindos! Não consegui o melhor ângulo e o dia estava nublando rapidamente, então me contentei com as próximas imagens. Acho que a máxima Deus ajuda quem cedo madruga funciona bem aqui nas Dolomitas!sta magdalena-1

A capela S. Giovanni, em Funes
A capela S. Giovanni, em Funes


Cerca de 50 km depois chegamos a Siusi, no vale. Nosso destino era o alto da montanha, o maior planalto de altitude da Europa, então tomamos o teleférico mais longo em que já “andei” (ensino Português para estrangeiros e eles morrem de rir quando digo que em Português a gente anda de carro, anda de cavalo, anda de metrô…) e tivemos algumas horas de paz e encantamento. Mas essa historia você lê no post Alpe di Siusi: o paraíso nos Alpes Italianos. Sim, o lugar parece um estereotipado paraíso: campos verdes enfeitados com flores amarelas, vacas pastando e seus sinos tocando. Vento fresco batendo no rosto num raro encontro com a natureza alpina. Passa lá pra ler!

Em Alpe di Siussi - Bullaccia
Em Alpe di Siussi – Bullaccia

Quando descemos até Siusi, no vale, seguimos em direção à autoestrada 22 até Trento (aquela mesmo do Concílio, que você estudou na escola), que ainda tem vista para as Dolomitas, muita historia e é uma cidadezinha deliciosa para passar a noite. Vou falar sobre ela em breve, aguarde!

Até agora não sei se deixei as Dolomitas satisfeita. Que gostei, não tenho dúvidas! Ficou a vontade de ir para ficar 10 dias, como eu havia planejado, para caminhar – de preferência sem chuvas! Porque tem muita coisa ainda para ver e fazer e se você tiver um tempo maior nesta região, vá até o post Dolomitas: guia para planejar sua viagem que lá tem mais sugestões!

E se você gosta de road trips, confira os relatos de viagens nas montanhas canadenses, na incrível Icefields Parkway e pelo Parque Torres del Paine. E logo estarei na HW1 da Califórnia, então tem mais roadtrip por aí! 

Lago Bow, na Icefields Parkway, Oeste Canadense
Lago Bow, na Icefields Parkway, Oeste Canadense. Também estava nublado…
Posts Relacionados às Dolomitas (clique sobre os títulos)

 

Alpe di Siusi, o paraíso nos Alpes Italianos

Para ser feliz: uma trilha na montanhas, mochila nas costas e viver um sonho acordada
Para ser feliz: uma trilha nas montanhas, mochila nas costas e viver um sonho acordada

Se houvesse teletransporte e você fosse enviado por uma falha qualquer na programação para Alpe di Siusi, é provável que pensasse estar morto e ter ganhado o paraíso como destino final. Isso se fosse primavera no hemisfério Norte, claro, quando os campos verdes do maior platô de altitude europeu se enchem de flores selvagens amarelas e os sinos das vacas que por todo lado pastam deixam no ar fresco da montanha uma melodia cheia de paz para completar o clima de paraíso. OK, harpas seriam mais adequadas, mas não produzem som algum apenas com o movimento das simpáticas cabeças bovinas.

Dolomitas Alpe di Siussi
Eu no paraíso – e viva!

Eu não fui teletransportada: Alpe di Siusi era um dos três destinos da minha tão esperada viagem ao Alpes Italianos naquele início de Junho. Os demais foram Lago Misurina, nos arredores de Cortina D’Ampezzo, e Val di Funes. Entre um ponto e outro, estradas com tantas curvas quanto paisagens dramáticas, arquitetura ora alpina ora italiana e igrejinhas que parecem ter sido construídas com aqueles tijolinhos de madeira de nossa infância. Mas as montanhas eram as protagonistas e eu não conseguia parar de repetir “Ai, que lindo!”, para desespero de minha colega de viagem.

Dolomitas alpe di Siussi

Escrevi aqui as dicas para você se preparar para esta parte das Dolomitas. Outras regiões das Dolomitas, como Funes, Trento, Cortina d’Ampezzo podem ser encontrados na aba Destinos, no menu do blog. Achei muito pouco material em Português sobre as Dolomitas e tudo foi meio que uma surpresa, aprendendo por lá o que estou compartilhando agora. Aliás, percebi que poucas pessoas sabiam da existência das Dolomitas. Uma pena, porque para quem gosta de montanhas esta parte dos Alpes poderia se tornar a queridinha da Itália e da Europa.

Se você apreciar as dicas e quiser contribuir com a manutenção do blog (sim, é preciso pagar hospedagem), faça seu seguro viagem pela Mondial ou reserve seu hotel ou pousada pelo Booking.com clicando nestes links. O valor é o mesmo que você pagaria entrando diretamente no site deles e assim eu recebo uma comissão.

Dolomitas Alpe di Siussi

Quando ir às Dolomitas
É preciso uma boa pesquisa para decidir quando ir, pois restaurantes e lojas e até mesmo algumas pousadas fecham fora das temporadas de inverno (que vão de final de dezembro a março) e de verão (final de junho a setembro).
Dolomitas na PrimaveraOriginalmente eu iria em Março porque comprei uma passagem promocional, mas acompanhando o clima da região, percebi que tudo estaria coberto de neve e não era minha intenção esquiar (nem que eu quisesse, pois não sei), então mudei a passagem para junho, decisão acertada.
Dolomitas no Verão – No verão os dias tendem a ser mais limpos, possibilitando avistar todos os cumes (e são muitos!) e tornando os passeios mais leves, sem necessidade de jaquetas. Motoqueiros tomam as estradas, especialmente perto de Cortina d’Ampezzo e trekkers se esbaldam nas trilhas acessíveis a qualquer mortal ou em outras mais restritas, como as da via ferrata (leia post Dolomitas para saber sobre as trilhas). Vi fotos de Alpe di Siusi no verão e o tapete amarelinho já não enfeitava os campos.

Motoqueiros no Passo Giau
Motoqueiros no Passo Giau

Dolomitas no Inverno – Os Alpes fervem no inverno para a prática de esqui. A região das Dolomitas possui 17 resorts de esqui, com um total de 978 quilômetros de pistas (668 pistas individuais) e 573 meios de elevação! Em Alpe di Siussi, são 25 pistas.

Entendendo o que é Alpe di Siussi ou Seiser Alm
Siusi é a cidade (no detalhe da foto abaixo) na base do platô Alpe di Siussi. O nome em alemão é Seiser Alm. Alemão? Sim, esta parte da Itália pertencia ao Império Austro-húngaro até o final da Primeira Guerra Mundial, então os costumes do Tirol do Sul são mantidos por aqui. Isso hoje, porque durante os anos sob a ditadura de Mussolini a cultura tirol havia sido proibida. Uma outra língua é praticada por uma porcentagem menor da população, o ladino.

Alpe di Siusi é o maior platô de altitude europeu e está 2 mil metros (veja foto abaixo) acima do nível do mar. Do que mais gostei é a acessibilidade, pois enquanto muitas montanhas são apenas para os mais preparados, em Alpe di Siusi idosos, crianças e até pessoas com mobilidade reduzida podem caminhar pelas trilhas tendo os cumes tão próximos. Além dos meios de elevação, a estrutura é de invejar: estacionamento em dois níveis coberto e automatizado (e barato: €0,40/hora), lojas, restaurantes, banheiros limpos e bem equipados.
Alpe di siussi mapa foto

Como chegar a Siussi
Siusi fica na região Trentino Alto Ádige, também conhecida como Tirol do Sul, que faz fronteira com a Áustria e a Suíça. 
🚙 Viemos de carro de Funes, a cerca de 40 quilômetros do outro lado da cadeia de montanhas, e seguimos as placas que indicavam o ponto de saída do cable car, pois após as 9h a estrada é fechada para veículos.

Quase chegando a Siussi. Note que o alemão aparece antes do italiano nesta região
Quase chegando a Siussi. Note que o alemão aparece antes do italiano nesta região

🚄As cidades mais próximas com acesso por trem são Bolzano e Bressanone (Brixen) e a partir delas você pode alugar um carro, usar as linhas de ônibus ou contratar passeios em agências. Não há trens que cheguem diretamente às Dolomitas, seja aqui, seja mais a Leste, em Cortina d’Ampezzo.
✈ Os aeroportos mais próximos ficam em Salzburg, Munique e Innsbruck, na Áustria, e na Itália em Milão, Veneza, Verona e Bolzano.

Estando em Siusi, você tem duas opções: 1) subir pela estradinha sinuosa, o que é permitido somente antes das 9h e depois das 17h, a menos que você tenha reserva em um dos hotéis ou pousadas do platô; 2) tomar o cable car com 4.300 metros de extensão, que além de transporte é um passeio lindo, sobrevoando casas, campos com vaquinhas, trilhas, estradas.

Se você vem pela SS242 vindo de Selva di Val Gardena, há um outro cable car até Alpe di Siusi, que sai de Ortisei e tem 1.684 metros de extensão. Como chovia muito no dia em que passamos por lá, nem paramos, então não tenho dicas em primeira mão, mas o site oficial tem as informações de que você precisa.

Preço do bondinho para Alpe di Siusi
O bondinho custou €16 ida e volta, mas há diversas opções de passes semanais (€85) e anuais (a partir de €130). O Combi card parece mais vantajoso para quem vai trilhar por vários dias, porque permite subir e descer 3 vezes (€39). Outro combo dá uso irrestrito por 7 (€52) ou 14 dias (€76). Cães e bicicletas também podem pegar a carona para as nuvens. Para informações que você não encontrar no site da cidade, escreva para info@seiseralmbah.it

Para o infinito e além!
Para o infinito e além!
Dolomitas Alpe di Siussi
Indicação de trilhas em Alpe di Siusi e de hospedagem, no desembarque do cable car


Como circular em Siusi
Eu não circulei pois não tive tempo, mas a cidadezinha é uma graça, como todas as outras nas Dolomitas. Tirei uma foto do caderninho que retirei na estação do cable car que talvez ajude quem precisa se deslocar de transporte público.

As linhas de ônibus de Siussi
As linhas de ônibus de Siussi


Onde comer? nas alturas!
Depois que tirar dezenas de fotos, a fome bate e você se pergunta se há restaurantes ali no paraíso. Tome um outro cable car pertinho do ponto de desembarque do primeiro, o Puflatsch Bullaccia (€8), que te levará a um dos pontos com visual ainda mais incrível, conhecido como Bullaccia. Além destes que usamos, há um outro meio de elevação chamado Panoramico, mas não o usamos.

Alpe di Siussi Bullaccia

O cable car que leva a um ponto ainda mais alto: Bullaccia
O teleférico que leva a um ponto ainda mais alto: Bullaccia

No restaurante, o atendimento foi simpático, em inglês, por uma falante de alemão em trajes tiroleses que em breve estará no Brasil e Peru. A cerveja estava geladinha e aproveitei para comer um Schnitzel  (prato típico austríaco, mas que além do nome não tem nada de chique: é na verdade um empanado ou carne à milanesa). O preço, apesar do local exclusivo e especial, foi o mesmo que em outro café ou osteria italiana.

Dolomitas Alpe di Siussi Itália

O restaurante disponibiliza espreguiçadeiras. A natureza, a vista
O restaurante disponibiliza espreguiçadeiras. A natureza, a vista

 

Ah, mas eu tô rindo à toa!

Além da vista espetacular, o restaurante oferece as espreguiçadeiras e um playground para as crianças.

Dolomitas Alpe di Siussi o que fazer

Um outro ponto pertinho do restaurante é um círculo com indicação de todas as montanhas que dali podem ser avistadas:

Dolomitas-4-3
Chove em Sassolungo, uma das mais montanhas mais altas, com 3.181 metros

Depois do almoço, descemos o primeiro cable car e compramos lembrancinhas e suvenires. Aí eu vi este restaurante perto das lojas e da estação do bondinho, com mais uma vista imperdível e não resisti a um cappuccino. Quem pode me culpar?

restaurantes nas Dolomtias

Câmeras on line
Clique aqui para acessar a câmera on line panorâmica 360° em Alpe di Siusi. Se for noite na Itália, deixe para o dia seguinte, pois as câmeras são ao vivo. E não se esqueça que são 5 horas mais tarde na Itália em relação ao Brasil.

Leia dicas de como dirigir na Itália e minha experiência
dirigindo nas Dolomitas e na Toscana neste post

As bruxas do Sciliar
Eu sabia que devia ter uma explicação para eu ter ficado tão encantada, enfeitiçada por essas montanhas rsrsrs. Alpe di Siusi tem uma tradição de bruxaria desde o início dos tempos. Calma, na verdade, as “bruxas” eram mulheres que curavam doenças com ervas e faziam rituais para obterem uma boa colheita, coisas comuns antes do Cristianismo. Pesquisadores acreditam que antes delas este ponto havia sido local de cultos durante o neolítico (8 mil a mill AC), e que nesses bancos de pedra que podem ser alcançados numa caminhada fácil de 1,5 hora a partir de Bullaccia, deusas eram adoradas.

bullaccia

Então, se a atração exercida por estas montanhas é coisa de bruxaria, eu não sei. Que o lugar parece um estereotipado paraíso tenho certeza, assim como sei que você deveria conferir com seus próprios sentidos. Boas Dolomitas para você!

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Em breve sobre região das Dolomitas:
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