Eu tinha apenas uma tarde para passear por Pádua, e o objetivo principal era conhecer a Cappella degli Scrovegni, conhecida como a Capela Sistina da cidade. E por ser uma das obras fundamentais da pintura ocidental, reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2021.
A capela tem esse nome por ter sido encomendada por Enrico Scrovegni, em 1303, para expiar os pecados do pai banqueiro/agiota, imortalizado por Dante Alighieri no Círculo dos Usurários do Inferno em A Divina Comédia.

Entrar na Cappella degli Scrovegni é uma daquelas experiências melhor aproveitada se você chegar sabendo um pouco do que está prestes a ver. Vou tentar te ajudar, mesmo não sendo estudiosa das artes.
Localizada a 1 km da estação de trem de Pádua, ao lado de ruínas de uma arena romana – e por isso também chamada de Capela da Arena, a Cappella degli Scrovegni é relativamente simples por fora: um edifício pequeno, de tijolos, sem a grandiosidade arquitetônica de muitas igrejas italianas.
Como é a visita à Capela Scrovegni
A visita acontece com horário marcado. Eu comprei o ingresso pela GetyourGuide, com receio de não conseguir comprar na hora.
O número de visitantes é limitado a 25 pessoas por turno, incluindo um eventual guia. Quando estive lá, no final da tarde, havia menos de seis pessoas no meu grupo, o que tornou a experiência tranquila.
Mas não deixe para chegar em cima da hora. A entrada da capela fica um pouco escondida e o acesso é feito pelo sistema de controle climático.
Se chegar antes, aproveite para observar os painéis informativos espalhados pelo jardim. Entre as informações, há uma especialmente interessante: a representação da Estrela de Belém nos afrescos é associada ao cometa Halley, que Giotto teria observado durante sua passagem em 1301.
No horário de seu bilhete, você entra primeiro em uma sala de compensação climática. Ali, permanece por 15 minutos, enquanto o microclima é estabilizado antes da entrada na capela. Enquanto isso, é exibido um vídeo sobre a obra de Giotto. Depois disso, finalmente entramos na capela, onde temos apenas 15 minutos para observar as pinturas. É pouco, por isso é bom conhecer antecipadamente os destaques.

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Capela simples, pintura extraordinária
A simplicidade arquitetônica é compensada pela beleza das pinturas. Não há uma sucessão de altares, capelas laterais e elementos decorativos disputando nossa atenção. A pintura é a protagonista.
Praticamente toda a superfície está coberta pelos afrescos que Giotto pintou no início do século XIV. São 39 episódios da Vida da Virgem e da Vida de Cristo, distribuídos pelas paredes e pelo arco triunfal. Na parte inferior estão as representações dos Vícios e das Virtudes, enquanto toda a parede oposta ao altar é ocupada pelo monumental Juízo Final. Até a abóbada recebeu decoração: um céu azul estrelado dividido por faixas ornamentais.
Os afrescos não são um conjunto de imagens independentes, uma sequência narrativa que conduz nosso olhar pelas histórias de Maria e de Cristo, até chegar ao Juízo Final. É quase como ler uma história em imagens. E isso é importante para entender a inovação de Giotto.
Qual a importância de Giotto e da Capela dos Scrovegni?
Não é simplesmente a quantidade de afrescos que torna a Cappella degli Scrovegni tão importante. É a maneira como Giotto conta essas histórias.
A pintura italiana do século XIV estava passando por uma transformação, e Giotto teve um papel fundamental nesse processo. A própria Unesco considera o ciclo da Scrovegni um marco de uma mudança revolucionária na história da pintura mural. Os demais ciclos de afrescos de Pádua do século XIV, realizados por diferentes artistas, são apresentados pela Unesco justamente em relação às transformações iniciadas pelo trabalho de Giotto.
Giotto dá às figuras volume, presença física e expressão emocional. Seus personagens não parecem apenas símbolos religiosos. Eles choram, abraçam, conversam, demonstram medo, surpresa, tristeza e alegria, demosntram humanidade nos gestos.
É isso que faz com que uma cena pintada há mais de 700 anos ainda consiga provocar uma reação em quem está diante dela.
As cenas contam uma história
Se você é cristão, provavelmente reconhecerá com mais facilidade muitas das histórias representadas. Mas não é preciso conhecer profundamente a Bíblia para apreciar os afrescos.
Giotto constrói as cenas de maneira bastante narrativa. Os personagens estão envolvidos em acontecimentos que conseguimos compreender pelos gestos e pelas expressões. Um exemplo é o Beijo de Judas. Cristo e Judas estão no centro de uma multidão agitada, e a cena transmite tensão mesmo para quem não conhece todos os detalhes da passagem bíblica.
O Juízo Final, na parede oposta ao altar, é provavelmente a parte que mais chama a atenção (veja filme abaixo). No centro da composição está Cristo, enquanto anjos, santos, salvos e condenados se distribuem pela enorme pintura. É impossível olhar para aquela parede e permanecer completamente indiferente, imagine como era no século XIV!
Na parte inferior aparece o Inferno, com Lúcifer cercado por demônios que torturam os condenados, numa representação bastante violenta para uma capela que, poucos minutos antes, nos mostrava cenas de ternura e afeto. Mas esse contraste não é casual. O Juízo Final foi concebido como o desfecho da narrativa que percorre as paredes da capela. Depois de acompanhar a história de Maria e de Cristo e de passar pelas alegorias dos Vícios e das Virtudes, o visitante chega à representação da salvação e da condenação.
Outro detalhe que me chamou à atenção foi Enrico Scrovegni ajoelhado e oferecendo à Virgem um modelo da própria capela. É uma representação que conecta o homem que encomendou a obra ao edifício que estamos visitando.
Inclusive, seu túmulo e o de sua mulher estão na capela, comprovando a intenção de que ela fosse espaço funerário da família.
Visitar a Capela dos Scrovegni deveria estar no topo da lista de lugares para conhecer em Pádua. E é fácil chegar de trem a Pádua a partir de Veneza ou Verona.
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