O Sensō-ji, no bairro de Asakusa, é provavelmente o templo budista mais conhecido de Tóquio. A imagem do lanternão vermelho do Kaminarimon aparece em praticamente todo guia da cidade, mas atravessar esse portão, fotografar a Nakamise e chegar ao grande salão principal é apenas uma parte da experiência.
Não tenho dúvida que quanto mais informação temos a respeito sobre aquilo que vemos e sobre o que nos cerca, mais valorizamos, toleramos e compreendemos o mundo. Trazendo isso para o campo das viagens, quando estamos diante de um país como o Japão, de cultura tão diferente da nossa, não basta saber o que fazer, o que comprar ou como se locomover. Há muito mais para entender.
Esta é a razão pela qual achei importante ir além do relato da minha visita ao Sensō-ji, em Tóquio, e pesquisar os detalhes históricos, arquitetônicos e religiosos dos elementos que encontrei em meio à multidão. Afinal, quando entendemos o que estamos vendo, a experiência de viajar também muda.

Confira meu roteiro de 18 dias pelo Japão e, ao final deste post, tudo o que já publiquei sobre nossa viagem para ajudar seu planejamento
A história do Sensō-ji
Segundo a tradição do templo, a história começa no ano 628, quando dois irmãos pescadores encontraram em sua rede uma pequena imagem. Eles tentaram devolvê-la à água, mas a imagem continuava aparecendo nas redes. A estátua foi reconhecida como Kannon, o Bodhisattva da compaixão.
Um detalhe da lenda ajuda a entender vários símbolos presentes no complexo do templo: depois do aparecimento da imagem, teria surgido durante a noite uma floresta de pinheiros e, três dias depois da descoberta da imagem de Kannon, um dragão dourado teria descido do céu. Por isso, o dragão aparece repetidamente na iconografia do templo Sensō-ji.
Como é a visita ao Sensō-ji
Assim como o dragão, os portões, estátuas, lanternas, telhados e imagens religiosas do templo Sensō-ji não estão ali apenas para ornamentação. Cada elemento tem uma função ou uma história.
Vale frisar que o que vemos hoje não é original, grande parte do complexo foi reconstruída ao longo do tempo. O Sensō-ji sofreu sucessivas destruições provocadas por terremotos, incêndios e, mais recentemente, pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.
Kaminarimon
O Kaminarimon é o primeiro grande portão do templo Sensō-ji e provavelmente o elemento mais fotografado do complexo. Seu nome oficial é Fūraijinmon, ou “Portão dos Deuses do Vento e do Trovão”, representados pelas duas figuras nas laterais do portão. São divindades protetoras não apenas do templo, mas cuja presença expressa o desejo por condições climáticas favoráveis e boas colheitas.
O lanternão vermelho é tão chamativo que quase ninguém olha para a parte inferior, onde há um dragão esculpido. Confesso que não olhei ahaha. Atrás das figuras de Fūjin e Raijin estão Tenryū e Kinryū, dois deuses-dragão associados à água e considerados divindades protetoras do Sensō-ji.

Nakamise: o caminho entre o profano e o sagrado
Depois do Kaminarimon começa a Nakamise, rua comercial que leva ao templo, dentre as mais antigas do Japão, que se desenvolveu pelo enorme fluxo de peregrinos e visitantes do Sensō-ji. E hoje atende aos turistas que visitam o templo, servindo comida e souvenirs. Mas saber essa origem lhe dá outra importânica, não?

Hōzōmon: o portão dos guardiões
Um segundo portão ao final da rua traz outra grande lanterna vermelha com a inscrição 小舟町 = Kobunemachi, o nome de um bairro antigo de Tóquio que doou a lanterna ao templo Sensō-ji.
As figuras musculosas que protegem as laterais do portão são os Nio, guardiões presentes em muitos templos budistas japoneses que representam as forças protetoras e ficam no limite entro o espaço exterior e o sagrado.
Talvez você repare nas gigantescas waraji, tradicionais sandálias de palha penduradas na parte posterior do portão. Elas representam o poder dos Nio. A ideia é que seres malignos se assustariam ao perceber que guardiões tão gigantescos protegem o templo.

O Pagode de 5 andares
À esquerda do portão Hōzōmon, vemos o pagode de 5 andares do Sensō-ji, que foi reconstruído em 1973 e guarda relíquias de Buda em seu pavimento superior. Rende fotos tradicionais lindas, pena que eu estava apenas com meu celular.
Aproveitei para pesquisar sobre pagodes, já que a única relação que fiz veio de minha criação cristã: sempre tem um campanário junto às igrejas católicas. Mas na cultura budista, o pagode não é simplesmente uma “torre de templo”.
Sua origem remonta às stupas indianas, estruturas que originalmente guardavam relíquias de Buda. À medida que o budismo se espalhou pela Ásia, a stupa foi assumindo diferentes formas arquitetônicas. Na China, esse modelo evoluiu para os pagodes; depois, chegou ao Japão com o budismo.
No Japão, muitos pagodes tradicionais têm cinco níveis, associados aos cinco elementos da cosmologia budista: terra, água, fogo, vento, espaço/céu. Sua estrutura utiliza técnicas tradicionais que permitem maior flexibilidade durante os terremotos, uma característica importante da arquitetura japonesa.

Incenso e purificação
Antes de subir as escadas do Kannondō está o grande jōkōro, o queimador de incenso. A fumaça é tradicionalmente recebida pelos visitantes como uma forma de desejar saúde e proteção. É comum ver os fiéis aproximando a fumaça do corpo com as mãos.

Também é comum o ritual de purificação das mãoes e boca antes de entrar no templo: segura-se a concha com a mão direita e lava-se a esquerda, depois se troca de mão. Volte a concha para a mão direita, coloque um pouco de água na mão esquerda e enxágue a boca sem encostar a concha nos lábios. Por fim, incline a concha para que a água escorra pelo cabo, deixando-a limpa para o próximo visitante.
Note que as torneiras tem a forma de dragão; ele, mais uma vez.

Finalmente, o Kannondō: o salão principal do Sensō-ji
O Kannondō do Sensō-ji, ou Salão de Kannon (a imagem da divindade encontrada pelos pescadores, lembra?), é o edifício que mais interessa observar com atenção. O atual salão foi concluído em 1958, mas reproduz essencialmente a aparência do antigo edifício do período Edo.
O belo telhado, eu nunca imaginaria, recebeu telhas de titânio em 2010, para reduzir o peso da cobertura.

O dragão aparece novamente nas peças sobre o telhado e no Gokūden, o pequeno santuário dourado que abriga a imagem de Kannon. Mas ela está oculta, guardada, não pode ser vista. Outras figuras budistas e um dossel de madeira revestido de ouro são elementos tradicionais da decoração budista e simbolizam a dignidade e a sacralidade da presença da divindade.

Omikuji
Em terras tupiniquins, era comum tirar a sorte com o realejo, e o papagaio é que puxava o papel com a sorte. Apesar da referência de infância, o omikuji não é exatamente uma “sorte” no sentido de prever o futuro – e não tem papagaio! É uma mensagem de fortuna/orientação, que pode trazer diferentes graus de boa ou má sorte.
Como funciona:
- fizemos uma pequena doação, depositando moedas numa caixa própria para isso
- pegamos o cilindro metálico cheio de varetas numeradas e o sacudimos
- retiramos uma vareta e lemos o número impresso nela
- abrimos a gaveta correspondente ao número e retiramos o papel da sorte
Minha filha tirou a sorte ruim, ficou mega frustrada, tadinha! Daí eu falei que era só ela dobrar o papel em um suporte ou árvore no templo, para “deixar o azar para trás”.
Como a minha foi boa, guardei o papel como amuleto – e fiz minha fotinho! Engraçado que falava algo sobre picos altos. Sei que é simbólico, mas como adoro montanhas, amei!



Passeios guiados em Tóquio e outras partes do Japão
Não é impossível viajar de foram independente para o Japão, mas cansa. É preciso traduzir quase tudo, muita gente não fala inglês e não dá para viver sem um app de tradução. Desde 2024 o passe de trem ficou mais caro, então muita gente opta por fazer alguns passeios com guias em excursões. Veja alguns que selecionei, comercializados pela Get your Guide, plataforma que uso e indico a meus clientes e leitores do blog.
Minhas impressões do Sensō-ji
Como todo lugar extremamente turístico, o Sensō-ji hoje tem uma dupla identidade. É um templo budista em funcionamento, onde pessoas continuam vindo para rezar e fazer suas práticas religiosas, mas também é uma das principais atrações turísticas de Tóquio.
E confesso que isso me incomodou.
Durante a visita, tive a sensação de que, em alguns momentos, o templo funcionava mais como cenário para fotografias do que como lugar de culto. Pessoas disputavam os melhores ângulos, posavam diante dos portões e circulavam pelo espaço religioso sem necessariamente perceber o que acontecia ao redor.
Em outros templos que visitei no Japão, especialmente em Matsumoto e Takayama, achei mais fácil perceber a dimensão religiosa. Havia menos turistas e era possível observar moradores chegando, fazendo suas orações diante do altar e seguindo seu caminho. Não parecia haver necessidade de transformar aquele momento em uma experiência para ser fotografada.
No Sensō-ji, a situação é bastante diferente. A quantidade de visitantes é enorme e, em determinados momentos, pode ser difícil até mesmo se aproximar do altar sem disputar espaço com quem quer fotografar.
Não acho que isso seja motivo para deixar o templo de fora do roteiro — muito pelo contrário. O Sensō-ji é um dos lugares que considero importantes conhecer em Tóquio. Mas recomendo ir preparado para a multidão e, principalmente, lembrar que estamos dentro de um templo em funcionamento.
Fotografar faz parte da experiência de viajar. Eu mesma fotografei muito. Mas, quando há pessoas rezando, vale baixar a câmera, observar e respeitar.
Acho que esse é um bom limite para qualquer viagem: não deixar que a fotografia da experiência seja mais importante do que a própria experiência.

Viajar com mais significado também começa no planejamento
Este artigo nasceu de uma ideia que levo para minhas próprias viagens: quanto mais entendemos um destino, melhor viajamos por ele.
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Espero que sua visita ao Senso-ji tenha mais significado depois desta leitura. Se tiver mais dicas, faça um comentário, ele pode ajudar outros viajantes. Bom Japão para você!








