Das cidades italianas, Bérgamo não era prioridade. Difícil mesmo competir com cidades mais populares do norte da Itália, como Milão, Veneza, Verona ou mesmo Pádua. E só depois de várias viagens à Itália consegui visitá-la, e me perguntei por que a gente deixa de lado algumas cidades tão interessantes quando faz um roteiro, privilegiando sempre as mais populares.
Com tanta gente viajando cada vez mais, lotando restaurantes e praças onde só vemos turistas e nada da vida local, ficando em apartamentos em centros históricos onde o que menos se vê é a vida real da cidade, está mais do que na hora de repensar esse costume. E quem sabe incluir Bérgamo numa primeira viagem à Itália.
Convido você a ler também Entre Milão e Veneza: cidades lindas para sair do óbvio no norte da Itália e 8 cidades subestimadas da Europa – vizinhas de ‘famosas’

Mas voltemos à bela Bérgamo. Caso você já tenha visto alguma imagem da muralha que cerca a Città Alta de Bérgamo, é bem possível que queira incluí-la em seu roteiro. Ao menos foi assim comigo. E quando planejei o roteiro Itália e Suíça, ela foi a primeira cidade visitada.
E a primeira cidade é sempre especial, quando estamos cheios de expectativas e no pico da felicidade por estar pisando num país tão querido quanto a Itália, talvez por estar realizando um sonho antigo. Então Bérgamo deixou muitas lembranças boas, mas mesmo que tivesse sido a última cidade do roteiro, teria agradado.

Chegamos de carro alugado a partir do aeroporto Malpensa, por volta da hora do almoço. Como eu sabia muito pouco da cidade, me impressionei com os edifícios e praças ao redor da Viale Roma e mais ainda na bela Piazza San Marco, onde fica o hotel Excelsior em que passamos a noite.



E vamos à Città Alta de Bérgamo!
Da janela do nosso quarto, tínhamos vista para o centro histórico amuralhado de Bérgamo, a Città Alta. Tão ou mais gostoso foi caminhar pelas ruas arborizadas com casarões ajardinados que levam até o funicular que nos transporta à Città Alta de Bérgamo.
Tenho uma atração por meios de elevação, talvez por nos permitirem chegar a picos de montanha e ver vales e cidades do alto sem grande esforço físico. E tomar o funicular de Bérgamo foi bastante cômodo para superar os 85 metros de desnível entre as duas Bérgamo.
Mas se você prefere gastar as calorias obtidas numa viagem à Itália, ao lado da estação do funicular tem um caminho pavimentado com pedras de rio que me lembrou as ruas de Mantova (Mântua, em português), na forma de rampa e degraus, que leva à Città Alta.

Resisti à vontade de caminhar de imediato pelas muralhas e guiei o pequeno grupo pelas ruelas estreitas, observando os janelões dos edifícios, os letreiros do comércio do período entre guerras, as vitrines com o doce típico de Bérgamo, a polenta e osei, que não tem nada a ver com polenta. Trata-se de um bolo de pão de ló recheado com creme, chocolate ou avelã. Não achei uau, apenas OK. Valeu pela experiência.

Também posamos para fotos na Fontana del Gombito, perto da torre medieval de mesmo nome, onde há 2 mil anos ficava o principal cruzamento de estradas da Bérgamo romana. Gombito vem do latim compitum, que significa encruzilhada. Capisci?
E chegamos à Piazza Vecchia, centro do poder medieval da cidade e onde hoje ficam aqueles cafés com diversas mesas ao ar livre onde todo mundo está tomando Aperol Spritz ou vinho branco. No centro dela, adivinha? uma fonte! E amo muito tudo isso! rsrs

O drink ficou para mais tarde. Em vez disso, subimos os degraus de pedra desgastados e escurecidos do Palazzo del Podestà, que abriga a torre de 52 metros de altura do século XI, chamada Campanone, e o Museo del Cinquecento, um museu interativo multimídia. Não entramos no museu porque queríamos absorver a atmosfera italiana ao ar livre.


Mas entramos rapidamente no Palazzo della Ragione, o edifício civil mais antigo da Città Alta (séc XII e XIII). Sede do governo local, tribunal e espaço de administração da justiça — daí o nome “Palácio da Razão”, isto é, o lugar onde se aplicava a lei. O salão superior usado para as assembleias da era medieval hoje abriga exposições temporárias.
Ao entrar, achei as pinturas nas paredes deslocadas e descoordenadas, e só entendi o motivo dessa impressão quando pesquisei para escrever aqui. Os afrescos pertenciam a igrejas, edifícios públicos e casas nobres de Bérgamo, removidos no século XX para evitar sua perda e levados ao palazzo della Ragione. No centro do salão, um fio de água me direcionou até a escultura contemporânea representando um homem em situação de rua que urinava. Um contraste dessas duas Itálias separadas por séculos…


Você tem uma música tema de viagem? John Williams sempre orquestra Jurassic Park em minha cabeça quando passo por portais ou túneis e vejo algo deslumbrante. Foi assim quando cruzei um dos arcos que separam a Piazza Vecchia da Piazza del Duomo e avistei a belíssima Basílica di Santa Maria Maggiore, ao lado da catedral de Bérgamo.

Seu interior é um dos mais ricos que já visitei. Não pelas pinturas ou esculturas ou toneladas de ouro, mas principalmente por um elemento para mim inédito em uma igreja: tapeçarias. Eu só tinha visto tantas tapeçarias assim no Louvre de Paris. De longe, elas parecem pinturas, de perto, revelam o extraordinário trabalho dos tecelões, que utilizavam diferentes tipos de fios para criar profundidade, brilho e efeitos de luz. Mais do que peças decorativas, as tapeçarias tinham função prática: eram expostas durante as principais celebrações religiosas para tornar o interior da igreja ainda mais solene e transmitir passagens da fé cristã a uma população que, durante séculos, em sua maioria não sabia ler.


Além das tapeçarias, a Basílica di Santa Maria Maggiore reúne um conjunto impressionante de elementos decorativos, como o coro, considerado um dos mais importantes conjuntos de marchetaria renascentista da Itália. Os confessionários também impressionam!


Com toda essa riqueza, a Basílica não é o Duomo, a catedral de Bérgamo. E com tanta riqueza admirada por estes olhos, eu nem fiz questão de visitar o duomo, que fica ali ao lado, mas pelas fotos que vi é muito bonito.
E como gosto de reservar horas livres em todas as cidades que visito para dar lugar a surpresas, elas aconteceram. Caminhando sem destino, nos deparamos com uma imagem de filme: um casamento no Palazzo Terzi – e uma convidada adolescente entediada. Ela se aproximou de nós quando me viu fazendo a foto abaixo, e ‘fugiu’ um pouco da reunião familiar para praticar inglês comigo. A fesa dela acabou quando a mãe veio buscá-la. Naquela viagem, eu ainda não tinha destravado a língua de meus antepassados, pois ainda faltavam 3 meses para eu retornar à Itália e fazer meu sonhado curso de italiano em Verona.

E finalmente chegamos às muralhas! Construídas pela República de Veneza a partir de 1561, as Muralhas Venezianas transformaram Bérgamo em uma das fortalezas mais modernas do Renascimento para proteger a fronteira ocidental da Sereníssima contra o Ducado de Milão. Mais de 250 edifícios, incluindo igrejas e conventos, foram demolidos, alterando profundamente a paisagem da cidade.
Ao longo dos séculos XIX e XX, algumas portas e acessos foram adaptados para facilitar a circulação. Mais recentemente, projetos de restauração e conservação garantiram sua inscrição como Patrimônio Mundial da UNESCO por seu excepcional valor histórico e arquitetônico.
Caminhar sobre as muralhas era o que eu mais desejava fazer em Bérgamo. Com cerca de 5,3 km de extensão e altura que varia entre 10,5 e quase 22 metros, as muralhas formam um grande mirante sobre a Cidade Baixa, a planície do rio Pó e, em dias de céu limpo, os Alpes.
Nesta tarde conhecemos a parte das muralhas à esquerda da Porta San Giacomo, mas depois de uma noite de sono restauradora tivemos energia para subir à Città Alta a pé e passar por esta que é a entrada mais elegante da cidade murada.
Em vez de usar a Salita della Scaletta, subimos por uma rua residencial onde encontramos algumas fofuras.
Leia também Muralhas e Portas de Verona: personagens reais da História
Pouco antes da Porta San Giacomo, há um portal que me lembrou algum lugar de Outo Preto-MG e poucos metros mais uma surpresa: uma horta aos pés da muralha. A fachada renascentista desta porta, revestida de mármpre branco, com colunas, frontão triangular e o Leão de São Marcos (símbolo de Veneza), foi projetada para impressionar quem chegava da planície e de Milão, o que indica sua função mais cerimonial do que militar.



Até chegar ao nosso próximo destino, na outra ponta da muralha, passamos por elementos que tornam uma cidade acolhedora, charmosa e deliciosa de explorar: ruas revestidas de pedras, gerânios em floreiras de janelas, torres destituídas de suas igrejas, portas que se abrem para pátios encantadores, telhados com tantas chaminés que parecem velas fincadas num bolo de aniversário. Museus locais, fontes desativadas (que o Google Maps registra erroneamente como bocca della verità) e até o carro mais fofo ever, o Fiat Topolino.

E chegamos à Rocca di Bérgamo, fortaleza situada no alto da colina Sant’Eufemia. Construída entre 1331 e 1336 durante conflitos entre guelfos (favoráveis ao papa) e gibelinos (favoráveis ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico). Segundo o Lombardia Beni Culturali, embora a origem do conflito fosse política, na prática se transformou em uma luta pelo controle de Bérgamo entre poderosas famílias nobres, resultando em décadas de violência, exílios e mudanças de governo. A cidade mergulhou em um período de instabilidade política, o que acabou favorecendo a expansão dos Visconti de Milão, que conquistaram a cidade em 1331 e puseram fim à autonomia do antigo Comune.
Logo após o portão você verá alguns canhões e a entrada do Museo dell’Ottocento, cujo tema é o Risorgimento italiano: a união dos reinos e formação da Itália como um só país, ainda que não uma república.


Caminhar pelos jardins e terraços da Rocca di Bergamo foi um passeio prazeroso entre árvores de diversas espécies e canteiros bem cuidados. Além disso, proporciona vistas para 3 diferentes lados da cidade. Em uma delas, a da foto abaixo, ficamos na altura das torres da cidade, um privilégio que não vi em outra cidade.

A Città Bassa
Nossos amigos nos esperavam na parte baixa da cidade, onde passeamos rapidamente entre edifícios da era Mussolini na Piazza della Libertà e Dante Alighieri. Ao lado da fonte (foto abaixo), um irresistível mapa de Bérgamo desenhado no chão trouxe um pouco de simpatia entre os prédios sisudos de linhas retas.

No quarteirão seguinte, as arcadas do Quadriportico del Sentierone e a alameda arborizada que leva à Igreja dos Santos Bartolomeu e Estevão suavizaram o passeio pela Città Bassa. Vemos a vida pulsando entre cafés, lojas elegantes, jardins e o Teatro Gaetano Donizetti. Uma bela maneira de dizer arrivederci a Bérgamo. O Lago di Garda nos esperava.


Bérgamo é mais bonita que Milão, Mântua e outras da Lombardia?
Existem muitas cidades históricas na Lombardia, mas poucas preservaram tão bem seu patrimônio quanto Bérgamo. Milão sofreu bombardeios aéreos durante a Segunda Guerra, mas é claro que continua sendo uma bela cidade. Entretanto, Milão não tem um centro histórico medieval, que é o grande destaque da Città Alta de Bérgamo. Nem as fantásticas muralhas.
Mântua seria uma concorrente à altura do título de cidade mas bonita da Lombardia – e ao chegar a este parágrafo eu quase mudo o título do post. Além do centro histórico, os lagos e palácios ricos em arte renascentista somam pontos altos para Mantova, mas ainda acho Bérgamo mais charmosa.
Caso você precise de ajuda para organizar sua viagem, fale comigo, pois além de viajante experiente sou agente de viagens. E minha especialidade são os roteiros personalizados, em que eu e você montamos seu dia a dia na Itália, com orientação para compra de ingressos, escolha de hospedagem e todas as dicas que você precisa para viajar com planejamento profissional.














