Vicenza é ofuscada por cidades vizinhas de peso, como Veneza, Pádua e Verona, mas merece um pouco de seu tempo. Venha comigo neste tour, em que te apresento o que fazer em Vicenza e deixo links com dicas de outras cidades do norte da Itália.

Ciao, Vicenza!
Depois de uma caminhada prazerosa do apartamento em Verona à pequena e agitada estação de trem da cidade mais charmosa do norte da Itália, me perguntei o que esperar de Vicenza além de suas principais atrações. Entre uma mordida e outra no brioche al cioccolato, imaginei como teria sido meu bisavó. Que pensamentos teria naquele 1882, enquanto caminhava pelas ruas de Vicenza para se inscrever no Exército Real do Reino da Itália?
Meia hora depois eu já registrava minhas primeiras impressões da cidade no século XXI. Quem sabe um bisneto meu leia este post um dia para saber de meus sonhos enquanto caminhava por Vicenza…
Afinal, a vida é feita de um monte de dias cheios de obrigações e coisas chatas, então sonhar e principalmente realizar sonhos é o que nos impulsiona a viver experiências diferentes. Nos meus 50 e muitos anos, nada de anseios por netos ou bisnetos. Estou ainda investindo nos meus sonhos, e espero que minha filha invista nos dela, não podemos sonhar pelos outros. E o sonho realizado da vez foi estudar italiano em Verona, o que me permitiu fazer este bate e volta a Vicenza, dentre tantos outros.

Arredores de estações de trem raramente são tão agradáveis quanto em Vicenza, graças ao Campo Marzo. De terreno pantanoso usado para competições equestres e paradas militares, a área se transformou numa sala de visitas verde durante o domínio austríaco do Vêneto. Foi uma boa recepção.
Não passei pela grande praça, segui na direção contrária, pois eu queria ver Vicenza do alto, e de uma maneira muito especial: depois de caminhar sob os Pórticos do Monte Berico. Concebidos como um percurso de peregrinação para a chegada ao Santuário da Madonna di Monte Berico, o conjunto tem 700 metros de extensão – e que inclinação.

Construídas entre 1746 e 1780, as 150 arcadas estão organizadas em 15 grupos de 10, separados por capelas que simbolizam os 15 Mistérios do Rosário, enquanto os 150 arcos representam as 150 Ave-Marias da oração tradicional. Dessa forma, o trajeto não tinha apenas a função de proteger os peregrinos do sol e da chuva, mas também de conduzi-los a um caminho de oração e contemplação antes de chegarem ao santuário. Ave Maria!
Tão católica que sou quanto um monge tibetano, eu não sabia disso. Mas parei umas 150 vezes para fotografar e descansar e dizer Ave Maria, acho que tá valendo rsrs. Também vi sem-teto tirando proveito do abrigo, por que não?

Após minha peregrinaçao turística, retomei o fôlego para perdê-lo novamente diante da vista de Vicenza na Terrazza di Monte Berico. Localizada em frente ao Santuário da Madonna di Monte Berico, oferece vista panorâmica de 180° sobre o centro histórico, a planície do Vêneto e, em dias de céu limpo, até os Pré-Alpes. Também é chamada de Piazzale della Vittoria, pois foi construída para celebrar a vitória da Itália na Primeira Guerra Mundial. Você verá alguns memoriais militares por lá.
No horizonte (foto que abre este post), a Basílica Palladiana e a Torre Bissara da Piazza dei Signori são facilmente identificáveis, mesmo a esta distância. Imagino essa visão impactante no século 16 – ou mesmo por meu bisavô no século XIX.
Da Terrazza di Monte Berico, um prédio alto se destaca no horizonte. É a Torre Everest, cuja fachada ganhou, em 2024, um gigantesco mural de Paolo Rossi, pintado pelo artista brasileiro Eduardo Kobra. Escolha carregada de ironia: justamente um brasileiro homenageou o craque italiano que entrou para a história ao marcar os três gols da vitória da Itália sobre o Brasil na Copa do Mundo de 1982. Você deve se lembrar o quanto ele foi ‘odiado’ pelos brazucas (rsrs).


Sugestão: tome seu café da manhã no restaurante que tem a mesma vista da terrazza. Ou vá ao por do sol para um drink, melhor ainda.
Como tantas outras igrejas, o Santuário da Madonna di Monte Berico surgiu em agradecimento ao final de uma peste no século XV, após algumas aparições da Virgem Maria no local.
Seu exterior é muito interessante, pois possui três fachadas idênticas: a voltada para os pórticos é a entrada principal da basílica barroca; no lado oposto, uma igreja menor de tijolos aparentes preserva a memória do primeiro santuário, erguido em 1428; entre elas, a fachada voltada para o terraço.
Eu não fotografei o interior porque estava acontecendo uma missa, mas é muito rica em estilo barroco e bem mais bonita do que a própria catedral de Vicenza.


Ainda não era hora de conhecer o centro histórico de Vicenza e como sempre faço na Itália, caminhei na direção oposta para descobrir cantinhos menos explorados. Dez ou quinze minutos depois, eu estava no Museo del Risorgimento. O portal é evidentemente do período de Mussolini, embora o prédio que abriga o museu seja de período anterior. Como anuncia o nome, o acervo se dedica à história da unificação da Itália (Risorgimento) e à resistência italiana durante a Segunda Guerra Mundial, com documentos, armas, uniformes e objetos históricos ligados a esses períodos.
O museu fica dentro do Parque Villa Guiccioli, que é muito bonito e estava especialmente agradável naquele fim de manhã de outono. Mas minha intenção era fazer a trilha até a Villa la Rotonda, que começa ali. Entretanto, viajar sozinha tem uma desvantagem: às vezes nos sentimos inseguras para fazer algo, como aconteceu nesse momento. A trilha era muito fechada, estava muito deserto, e preferi retornar.

A Villa La Rotonda é considerada a obra-prima residencial de Andrea Palladio, projetada com uma planta perfeitamente simétrica: um salão circular central coberto por uma cúpula e quatro fachadas idênticas, cada uma com um elegante pórtico inspirado nos templos da Roma Antiga. A villa também impressiona pela forma como se integra à paisagem da colina, orientada para oferecer belas vistas em todas as direções. Seu desenho inspirou residências e edifícios públicos na Europa e nos Estados Unidos, como a residência presidencial de Thomas Jefferson.
Acabei deixando a visita à Villa la Rotonda de lado. Mas se a incluir numa lista de o que fazer em Vicenza, confira este tour liderado por um historiador de Arte.
O que fazer no centro histórico de Vicenza
Desci o Monte Berico e caminhei pelas ruas sinuosas do bairro Borgo Berga, até chegar ao Arco delle Scalette, portal que marca o início do caminho dos fiéis ao Monte Berico antes da construção dos pórticos. Também projetado por Andrea Palladio, o monumento possui uma grande abertura central ladeada por colunas coríntias e esculturas no topo.


Atravessei a movimentada avenida e caminhava pela margem do rio Bacchiglione, um dos rios que banha o centro histórico de Vicenza – o outro é o Retrone, quando um senhor italiano me perguntou onde ficava o Teatro Olímpico. Era minha primeira semana de aula de italiano, e os segundos que demorei para responder foram suficientes para ele demonstrar toda sua italianice, num gesto de desaprovação muito usado pela família do meu marido. Acho que é por isso que gosto tanto da Itália, é tudo diferente e ao mesmo tempo tão familiar…
Cheguei à Colonna del 20 settembre, monumento que comemora a Tomada de Roma, em 20 de setembro de 1870, completando, na prática, a unificação da Itália (Risorgimento). Em seu topo, estátua da deusa Vitória (Nike). Minha próxima parada estava no próximo quarteirão: O incrível Teatro Olímpico.
O Teatro Olímpico é a última obra de Andrea Palladio e um dos maiores tesouros arquitetônicos de Vicenza e da Itália. Inaugurado em 1585, foi o primeiro teatro coberto permanente da era moderna inspirado nos antigos teatros da Roma clássica. Impressiona pela plateia em formato semicircular, pelas colunas e esculturas que reproduzem a arquitetura da Antiguidade e pela perfeita harmonia de suas proporções. O teatro faz parte do conjunto “Cidade de Vicenza e Villas de Palladio no Vêneto”, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO.
Seu maior destaque é o cenário fixo de madeira projetado por um discípulo de Palladio. Criado para a estreia da tragédia Édipo Rei, o cenário utiliza um efeito de perspectiva que faz as ruas parecerem muito mais longas do que realmente são, criando uma ilusão de profundidade que continua encantando os visitantes mais de quatro séculos depois. É considerado o cenário teatral renascentista mais antigo do mundo ainda preservado em seu local original.

Conto mais a respeito do Teatro Olímpico de Vicenza em um post exclusivo a ele. Ele merece.
Já era hora de me sentar e comer algo, e escolhi uma mesa ao ar livre do restaurante Angolo Palladoio, apesar do friozinho, porque era muito simpática a Piazzeta. Foi uma ótima escolha! Se quiser ter uma ideia de custo, um linguine con camarões, água mineral e uma taça de Valpolicella saíram por 27 euros.
Além da boa comida, o restaurante fica bem ao lado das colunas da Basilica Palladiana, onde uma estátua do arquiteto Andrea Palladio também as observa. Apesar do nome, nunca foi uma igreja: o termo “basílica” faz referência às antigas basílicas civis romanas, destinadas à administração da justiça e aos negócios públicos. O que faz sentido, ali funcionava o Palazzo della Ragione no século XV.


Achei-o bem diferente de outros palazzi della Ragione que visitei no Vêneto. O térreo tem lojas históricas, cafés e acessos para exposições temporárias, além de servir como passagem entre a Piazza dei Signori e as ruas vizinhas. É também ali que fica a joalheria histórica de Vicenza, cidade reconhecida como um dos principais centros italianos da ourivesaria.
No andar superior fica o imenso Salone, de aproximadamente 52 metros de comprimento, coberto por uma impressionante estrutura de madeira em forma de casco de navio invertido (la carena). Esse espaço, que na Idade Média abrigava os tribunais e as assembleias da cidade, hoje recebe exposições temporárias de arte e arquitetura. Do salão, é possível acessar o terraço panorâmico, de onde se tem uma das vistas mais bonitas da Piazza dei Signori, da Torre Bissara e dos telhados de Vicenza.



Voltei ao centro da Piazza dei Signori e observei melhor seus elementos:
- a medieval Torre Bissara, com 82 metros de altura e um relógio astronômico
- as colunas do Redentor e do Leão alado de San Marco, símbolo da República de Veneza, que dominou Vicenza de 1404 a 1797.

Uma festa de noivado ou casamento estava animando um lado da piazza e algum evento comunal estava sendo preparado. Barreiras metálicas atrapalhavam um pouco o fluxo, e mais ainda as fotos.
Outra obra de Palladio da Piazza dei Signori é o belo Palazzo dell Capitaniato, residência oficial do Capitão de Veneza, o principal representante político e militar da República de Veneza em Vicenza. Por isso você encontra um em várias cidades, como Malcesine no Lago di Garda, Bérgamo, Verona, etc.
A fachada voltada para a praça impressiona pelo contraste entre o tijolo vermelho aparente e as imponentes colunas brancas de pedra. A fachada lateral, na Contrà del Monte, é decorada com esculturas que celebram a vitória da República de Veneza na Batalha de Lepanto (1571) contra o Império Otomano, um dos acontecimentos mais importantes da história veneziana.

Se você viajar pelo Norte da Itália, perceberá um padrão interessante: assim como Vicenza, quase todas as cidades importantes possuem uma Piazza dei Signori, um Palazzo del Podestà, um Palazzo del Capitano ou ambos. Eles representavam a organização política da República de Veneza: o Podestà administrava a cidade e presidia a justiça, enquanto o Capitano era responsável pela defesa, pela ordem pública e pelos interesses militares da Sereníssima. A piazza dei signori, sempre tem:
- formato retangular
- um palazzo della Ragione
- uma torre cívica
- edifícios com pórticos para proteger comerciantes da chuva e do sol
- símbolos do poder veneziano, como a coluna do Leão Alado de São Marcos.
Depois caminhei sem rumo pelas ruas do centro histórico de Vicenza, caçando pinturas em paredes,esculturas, janelas góticas venezianas, mas nem sinal de vibrações de meu bisavô.



Cheguei à catedral de Vicenza. Depois de visitar inúmeras igrejas nessa região da Itália, como as 4 mais importantes de Verona, foi um pouco decepcionante conhecer o Duomo de Vicenza. De sua fachada não vemos a cúpula; a piazza del Duomo é na lateral, e não à frente da igreja; o interior não impressiona. O interessante é que o Duomo de Vicenza reúne arquiteturas de épocas diferentes:
- Campanário → românico medieval (séculos XI-XII).
- Corpo da igreja → gótico (séculos XIII-XIV).
- Cúpula → renascentista, projetada por Andrea Palladio (1565).
- Capelas e interiores → diversas intervenções renascentistas e barrocas.



Minha última parada foi o Giardino Salvi, que fica além da Porta e Torre Castello, vestígios da defesa da Vicenza medieval, e por isso adivinhei que seu laguinho era parte do fosso. É um parque pequeno, mas ideal para descansar antes da caminhada até a estação de trem, se refrescar num dia quente, e tirar fotos no cantinho fotogênico que é a Loggia Valmarana.


Vale a pena conhecer Vicenza?
Vicenza, como quase tudo na Itália, é interessante para quem aprecia história, arte e arquitetura. Só a visita ao Teatro Olímpico já vale o bate e volta, seja de Veneza ou Verona. Mas entendo que as cidades próximas tenham um apelo muito maior. Caso tenha pouco tempo, escolha o que mais te interessa em Vicenza: o monte Berico? o teatro Olímpico? Caso tenha apenas uma parte do dia, também vale o bate e volta para conhecer este patrimônio Mundial da Unesco.


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Se tiver alguma pergunta sobre o que fazer em Vicenza ou outra parte da Itália, deixe-a nos comentários. Se tiver muitas, entre em contato para saber como eu posso te ajudar a organizar seu roteiro de viagem. Além de viajante experiente e de conhecer bem a Itália, sou agente de viagens e desenvolvo roteiros personalizados, escolhendo com você o que fazer dia a dia, para que a viagem fique com a sua cara.









