O Templo de Hatshepsut e a controversa faraó

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Templo de Hatshepsut

Você sabe quem foi Hatshepsut? Hoje, dia internacional da mulher, escolhi contar a vocês sobre a visita ao Templo de Hatshepsut, em Luxor, e falar um pouco da trajetória desta controversa faraó – em vida e até como múmia!

Pesquisar para escrever um pouco sobre Hatshepsut me fez aprender mais sobre alguns aspectos do Egito Antigo do que durante a viagem. E se você gostar de estudar, sugiro que pesquise antes da viagem, para aproveitá-la melhor. Para dicas de viagem, leias as dicas de viagem ao Egito, como é a comida no Egito, o cruzeiro no Rio Nilo e as visitas a templos e museus na página-índice Egito.

A mulher no Egito Antigo

Templo de Hatshepsut
a mulher (casada viaja) no Egito Antigo. Note a cobra esculpida na mureta

Já que estamos no dia internacional da mulher e falando sobre Hatshepsut e seu templo, falemos primeiro do papel da mulher no Egito Antigo.

Após o início da criação, quando Osíris e Ísis reinaram sobre o mundo, Ísis tornou os sexos iguais em poder, o que contribuiu para que a mulher no Egito Antigo gozassem de direitos só conquistados séculos depois em outras sociedades, como direito à terra e igualdade perante um tribunal. Ainda assim, os homens eram considerados o sexo dominante, e os escribas, predominantemente homens, escreviam a literatura que influenciava a forma como as mulheres eram vistas.

O Egito Antigo era uma sociedade patriarcal, e podemos ver nas árvores genealógicas que os faraós tinham uma esposa real e outras esposas no harém – o que perdura até os dias de hoje entre os egípcios muçulmanos.

O poder das mulheres é melhor identificado quando pensamos na influência das rainhas-mães, pois era comum filhos jovens chegarem ao trono e terem a seu lado uma rainha regente. Foi o caso do grande faraó Amósis I do Império Novo, por exemplo, que sempre se aconselhava com sua mãe, Aotepe I, e sua principal esposa, Nefertari, a avó de Hatshepsut.

Mas pense que, em toda a longa história da civilização egípcia, houve apenas duas ou três mulheres faraós nos 1.500 anos anteriores que antecederam o reinado de Hatshepsut – e que ascenderam ao trono apenas quando não havia nenhum sucessor masculino disponível. Não era uma sociedade tão igualitária assim no quesito gênero.

Templo de Hatshepsut
cabeças cortadas – e a minha dando nó tentando entender os hieroglifos

Ascensão de Hatshepsut como faraó

Hatshepsut governou o Egito de 1479 a 1458 aC, durante a 18a dinastia, mais tempo do que qualquer outra mulher. E este período foi dos mais prósperos e principalmente de paz, quando houve um boom de obras arquitetônicas e artísticas, período equiparado à Renascença europeia.

Única filha sobrevivente do faraó Thutmose I e da rainha Ahmose I, Hatshepsut se casou com Thutmose II, seu meio-irmão, filho de Thutmose I com uma esposa secundária chamada Mutnofret. Quando estive no Egito e ouvi essa história, fiquei meio chocada, mas o casamento entre irmãos era uma situação bem comum.

Não sei como os historiadores descobriram a informação de que Thutmose II era frágil e ineficaz, que justificasse a presença de Hatshepsut à frente do governo, pois os monumentos retratam uma rainha obediente posicionada ‘apropriadamente’ atrás de seu marido. Diferente da rainha Nefertari, cuja imagem aparece ao lado de Ramses II e que ganhou um templo magnífico em Abu Simbel.

Hatshepsut e Thutmose II tiveram apenas uma filha, então quando Thutmose II morreu, possivelmente ainda na casa dos 20 anos – o trono foi, mais uma vez, para um herdeiro filho de uma esposa secundária, Thutmose III. E Hatshepsut governou como regente, até que ele atingisse a maioridade. Ou até que ela própria se tornasse faraó.

Hatshepsut provavelmente sabia que sua posição como governante era delicada – tanto por ser mulher quanto pela forma que conquistou o trono. Para se consolidar como faraó, afirmou que fora concebida como divindade: o deus Amon havia engravidado sua mãe com seu hálito divino, sob o disfarce do Faraó Tutmés II, seu pai. Depois revelara sua verdadeira natureza, anunciando que Hatshepsut governaria o Egito.

Também passou a ser representada como uma figura masculina, com barba, sem camisa e sem seios, como podia ser visto em seu templo. Abaixo, figuras de Hatshepsut expostas do Museu Egípcio do Cairo e no MET de Nova Iorque que exemplificam isso.

Hatshepsut: usurpadora ou visionária?

Como você sabe, a história é contata segundo quem a interpreta. No artigo do Smithsonian, A Rainha que Queria ser Rei, a autora Elizabeth B Wilson lembra que foram homens de uma geração pré-feminista que registraram os primeiros achados arqueológicos de Hatshepsut:

“Não demorou muito até que essa mulher vaidosa (Hatshepsut), ambiciosa e sem escrúpulos mostrasse… suas verdadeiras cores.”

Segundo Catharine Roehrig, curadora de arte egípcia do Metropolitan Museum em Nova York, “Longe de roubar o trono, Hatshepsut pode ter se declarado faraó para proteger a realeza de seu enteado”, ameaçada por familiares que julgavam ter direito ao trono.

Deixando o feminismo de lado e nos transportando para o início do século 20, as estátuas de Hatshepsut quebradas ou decepadas ou que tiveram olhos arrancados encontradas nas escavações de 1927 do Templo de Hatshepsut podem ter contribuído para manchar sua reputação e classificá-la como usurpadora.

A morte de Hatshepsut

Por décadas acreditou-se que Hatshepsut havia sido morta por algum inimigo, possivelmente seu enteado Thutmose III (Tutmés III). Mas graças à tecnologia presente no século 21, descobriu-se que sua múmia não possuía nenhum ferimento, apenas sinais de artrite, cáries, e câncer nos ossos. E por enquanto não se chegou a uma única conclusão, mas a duas hipóteses: ela pode ter morrido de câncer ou de uma infecção não tratada resultante da extração de um dente e da baixa imunidade causada pelo câncer que causou inflamação.

Estátuas de osíris, no terceiro nível

A Múmia de Hatshepsut é encontrada

Durante as escavações do Vale dos Reis, em 1902, o arqueólogo Howard Carter descobriu dois sarcófagos, um de Hatshepsut e outro de seu pai, mas ambos estavam vazios. Explorando outras tumbas, em 1903 Carter encontrou duas múmias de mulheres deitadas lado a lado, uma anônima corpulenta e outra com a inscrição Sitre-In, ama de leite de Hatshepsut. Como não eram múmias reais, não receberam atenção.

Foi uma egiptóloga americana, Elisabeth Thomas, quem alertou para o fato de que a múmia gordinha tinha um dos braços sobre o peito, postura reservada à realeza, mas ninguém deu muita atenção à conceituada arqueóloga. E voltemos à igualdade de gênero, será que se fosse uma voz masculina a hipótese de a múmia ser real teria sido considerada?

a múmia de Hatshepsut quando ainda estava no Museu Egípcio do Cairo

Um dente na caixa

Exames de DNA feitos na primeira década do século 21, no laboratório milionário patrocinado pelo Discovery Channel no porão do Museu do Cairo, revelaram que a múmia obesa tinha o mesmo DNA de Ahmose Nefertari, a avó de Hatshepsut.

Ao mesmo tempo, tomógrafos examinaram artefatos associados a Hatshepsut. Um deles era uma caixa identificada com seu cartucho (selo real), que continha seus órgãos e um dente. A múmia obesa tinha um dente faltando. Foi a chave para comprovar a identidade da múmia de Hatshepsut.

O Templo de Hatshepsut 

Agora que você sabe um pouco da história de Hatshepsut, vamos ao turismo!

Os dias de início de primavera estavam ficando cada vez mais quentes, e quando chegamos ao complexo de templos Deir el-Bahri, no meio do dia, o guia que nos acompanhou durante toda a viagem ao Egito contou que o calor é tão intenso nos meses de primavera e verão que os turistas apenas olhavam à distância o templo de Hatshepsut. Isso ou o fato de ali ter ocorrido o ataque terrorista mais trágico da história do Egito (leia mais abaixo).

Templo de Hatshepsut

A visão do templo é impactante à distância, não só por sua grandeza, mas por seu desenho diferente de todos os templos que vimos no Egito, embora com os mesmos elementos pilão-salão hipostilo-capelas. Sua posição aos pés de um penhasco vertical e longas rampas de acesso que causam um efeito majestoso. E diferente dos demais templos, as colunas têm linhas retas o que me lembrou alguns edifícios construídos nos anos 1930-40 em várias partes do mundo ocidental.

Agora imagine todas estas enormes estátuas e colunas coloridas, as árvores exóticas trazidas de sua expedição a Punt, os espelhos d’água, esfinges enfileiradas pelo caminho… que espetáculo devia ser!

Templo de Hatshepsut

O templo funerário de Hatshepsut não foi construído para guardar seu corpo e tesouros, mas sim para que oferendas fossem levadas em sua homenagem após sua morte. Ela foi sepultada no Vale das Rainhas, do outro lado da montanha em que se encosta o templo.

Templo de Hatshepsut
Santuário de Anubis, onde não sobrou nenhuma representação de Hatshepsut

O que ver no Templo de Hatshepsut 

Nosso guia não nos acompanhou ao templo, então acho que perdemos alguns detalhes importantes, e o sol inclemente não ajudava nossa exploração. Mas deixo abaixo a planta baixa do Templo de Hatshepsut caso seu guia também não te acompanhe, assim você não perde nada. E as legendas das fotos complementam as informações.

  1. Pilão de entrada
  2. primeiro pátio, onde foram plantadas árvores e arbustos exóticos trazidos de Punt. Hoje podemos ver um resquício de uma destas árvores, protegida por uma cerca metálica
  3. rampa para o nível 2, ladeada por falcões sobre serpentes
  4. segundo pátio, onde havia duas fileiras de esfinges
  5. Túmulo de Senenmut, que projetou o templo. Não visitei e acho que não se pode entrar.
  6. rampa para nível 3, adornada com falcões
  7. colunata de Punt – Os relevos mostram a expedição saindo do Egito em dois barcos e chegando a Punt
  8. colunata do nascimento: decorações retratam o nascimento divino de Hatshepsut. As imagens da faraó e do deus Amon foram apagadas.
  9. capela de Hathor
  10. Santuário de Anubis
  11. terceiro pátio
  12. capela real
  13. capela solar
  14. santuário de Amon – um dos mais decorados

Capela de Hathor: originalmente eram 12 colunas que compunham o salão hipostilo

Ataque terrorista no Templo de Hatshepsut

E foi no Templo de Hatshepsut que aconteceu um dos piores ataques terroristas do Egito, quando 58 turistas e 4 egípcios foram mortos, em 17 de novembro de 1997. Isso não significa que uma viagem ao Egito seja mais perigosa do que uma a Nova Iorque ou França. Em todas as entradas de templos, shoppings e até nos hotéis há máquinas de raio-X. Não garantem segurança total, nos causam um certo incômodo físico e emocional, mas é mais do que outros países ocidentais fazem pela segurança de seus turistas.

Templo de Hatshepsut

Mais sobre a faraó e o Templo e Hatshepsut

  • No Templo de Karnak, desde abril de 2022 você pode ver o obelisco reconstruído de Hatshepsut. Não se sabe se foi um terremoto que o destruiu ou a fúria que também tentou apagá-la da história, como contei acima. Leia mais em Templos de Luxor e Karnak e a avenida das esfinges.
  • O obelisco inacabado na pedreira de Assuã é creditado como uma encomenda de Hatshepsut, por dois motivos: hieroglifos no Templo de Hatshepsut revelam cenas de um grande obelisco sendo transportado, e pelas semelhanças com o obelisco do Templo de Karnak.
o transporte do obelisco, em desenho de Marguerite-Naville, responsável pela maior parte do registro nos trabalhos de escavação no templo de Hatshepsut. Mais uma mulher que teve importante papel, mas recebeu apenas uma menção do marido arqueólogo
  • O Museu Egípcio, no Cairo, tem muitas peças de Hatshepsut, como seu sarcófago, esfinges, e fragmentos retirados do Templo de Hatshepsut que registram a visita da faraó a Punt. A cabeça abaixo é uma das 24 estátuas de Osíris que decoravam o pórtico do Templo em Deir el Bahari, e retrata a faraó com atributos masculinos, como a barba cerimonial e a pele marrom avermelhada, cor geralmente restrita aos homens na arte egípcia antiga, em contraste com a cor amarela pálida reservada às mulheres. Hatshepsut assumiu esta figura mais masculina na metade de seu reinado, provavelmente porque precisou.

O Museu Egípcio do Cairo tem muitas peças de Hatshepsut: sarcófago, esfinges, e fragmentos retirados do Templo de Hatshepsut que registram a visita da faraó a Punt. A cabeça ao lado é uma das 24 estátuas de Osíris que decoravam o pórtico do Templo em Deir el Bahari, e retrata a faraó com atributos masculinos: barba cerimonial e pele marrom avermelhada, cor geralmente restrita aos homens na arte egípcia antiga, em contraste com a cor pálida reservada às mulheres. Hatshepsut assumiu esta figura mais masculina na metade de seu reinado.

  • A múmia de Hatshepsut pode ser vista de pertinho no novo museu do Cairo, o Museu Nacional da Civilização Egípcia, junto a outras 21 múmias. Não deixe e ler o post sobre nossa visita, é um dos mais lidos do blog.
  • O Metropolitan Museum, em Nova Iorque, tem uma sala dedicada a Hatshepsut na ala egípcia, que é magnífica!
  • O Templo de Hatshepsut foi inspirado no templo vizinho, de Mentuhotep, construído 500 anos antes, e ainda sem restauração.
Marcia Picorallo

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Márcia, a viajante

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COMENTÁRIOS

4 respostas

  1. Estava morrendo de curiosidade de ler sobre o templo de Hatshepsut e a história dessa faraó. Como você bem sinalizou, apesar de alguma igualdade na sociedade egípcia ainda assim a voz da mulher é muito difícil. Até de barba e sem busto ela foi retratada! Amei o post!!!!!!!

  2. Estou planejando uma vagem para o Egito em 2025 (por aqui planejo 2 viagens por ano e em 2024 já temos outras), chegar a esse post foi maravilhoso. Farei o possível para colocar uma visita ao templo de Hatshepsut no roteiro.

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